Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Ondas curtas

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

A Moura

Clique na imagem para baixar o disco


“Esculpindo a solidão no sal”

Renato Negrão em Extravio


O CD de estréia da cantora mineira Maísa Moura é um dos trabalhos mais interessantes do mercado fonográfico atual. Além da voz de timbre raro, com coloração escura e expressão delicada, os arranjos sofisticados, quase sempre enxutos (por vezes até minimalistas) e o bom gosto que exala como um todo, o repertório consegue captar os lastros da decantação de uma tradição peninsular que herdamos e que fincou raízes no nordeste brasileiro. Para além da instrumentação, que mescla rabeca e violoncelo, sanfona e pandeiro, viola caipira e guitarra portuguesa, sitar indiano, saz turco e ronroco andino, os ecos dos árabes e bérberes que dominaram a Península Ibérica por oito séculos se faz sentir nas melodias modais, no acento rítmico das palavras, no lirismo agreste das letras.

O deserto percorre todo o disco, seja em arranjos que evocam a ação contínua dos ventos como em “Seu Avô”, seja na própria temática de canções como “Casa de Areia”, que descreve a ação inexorável do tempo e das forças naturais numa paisagem desolada. A solidão (Sombra, Terra Estrangeira, Extravio, Casa de Areia), a loucura (Canção do Lobisomem, Cego com Cego, Mortal Loucura), os rituais de passagem (Solstício de Inverno, Moçambique) assim como os pequenos prazeres e as belezas mais recônditas (O Pidido, O amor de Dentro, Ímpar ou Ímpar) insurgem com uma força arrebatadora que nos coloca diante do imponderável da vida. Cada nota soa como cristais de areia e sal que atravessaram o atlântico em correntes de ventos marítimos e formaram aqui paisagens sonoras inusitadas.

Por outro lado, consciente de que a influência moura aqui deste lado se fez presente por apropriação e justaposição constante de elementos da cultura árabe com a cultura negra, indígena e européia branca, através de fusões melódicas, rítmicas e instrumentais, o disco não se prende a um estilo ou gênero específico que possa dar ao trabalho o caráter de música árabe ou oriental, por assim dizer. Pelo contrário, o que se dá é um diálogo profundo com a melhor tradição da música brasileira e isso, por si só, explica e justifica seu ecletismo e sua profusão de referências implícitas. O tempero mourisco, por sua vez, surge amalgamando a multiplicidade nos pequenos detalhes, nos intervalos de tons audíveis apenas para os ouvidos treinados, nas escalas nordestinas que pontuam uma e outra melodia, nos silêncios suaves e nas respirações suspensas. Apesar de incontestável, a herança ibérica é sutil, às vezes subliminar, tornando a audição uma verdadeira aventura através do tempo e do espaço sonoro. E não é por acaso que o disco remete ainda aos gregos, a começar pelo próprio nome. Afinal, foram os árabes que re-introduziram a cultura grega na Europa medieval cristã.

O tecido fino dessa Moira interliga conceitos e idéias esquecidos no baú de nossa memória ancestral. O fio da tradição oral se torna por isso um guia imprescindível para nos orientarmos na travessia desse labirinto implacável de sons e sentidos. Não será surpresa tampouco se Cloto fiar essa linha de Ariadne na roca contemporânea que engendra a rede mundial conectada por fibras óticas. Nas mãos das Parcas as tessituras da vida se entrelaçam para determinar nosso destino. Maísa é uma fiandeira de sons e não há como passar imune aos seus sortilégios. A não ser que você tenha cera nos ouvidos!

Sábado, 20 de Junho de 2009

Rios, pontes e overdrives

Desde quinta estou em Recife participando do Porto Musical. O evento, na sua terceira edição e desvinculado da Feira Música Brasil - que foi novamente adiada, desta vez para dezembro - é hoje o melhor lugar no Brasil para se encontrar as pessoas mais interessantes e interessadas na exportação da nossa música contra-industrial. Encontrei por aqui, por exemplo, o Gerald Seligman, criador e diretor da WOMEX, o Edu Louzada, do projeto de exportação da música do Espírito Santo, o Benjamin Taubkin, do Mercado Cultural de Salvador e do mundo, o Brant Grulke, diretor do festival South by Southwest, o Pablo Capilé, do Espaço Cubo, o Ivan Ferraro, da Feira da Música de Fortaleza, além de dezenas e dezenas de outros que vem ajudando a confirmar o vaticínio de Tom Jobim: "A saída para a música brasileira é o aeroporto!"

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Manifesto pela Música Autoral

Há um fenômeno na música produzida em Minas atualmente. O que chama a atenção em primeiro lugar é algo aparentemente óbvio na caracterização de qualquer cena: é predominantemente autoral. Segundo, e não menos impressionante é a quantidade. Não há registro na história recente de outra época em que se tenha produzido tanta música como agora. Nem durante o período áureo do Clube da Esquina nos anos 70 nem durante a fase heróica do rock mineiro nos anos 80.

Além disso, há uma peculiaridade que dá liga e amálgama para toda essa produção, algo ainda intangível, dissimulado quase, subreptício, mas identificável na maior parte dessa produção, independente de gênero ou estilo. Esse elemento muitas vezes é identificado como um germe da escola harmônica mineira, ainda que seja a negação dela.

Outra característica dessa cena é o fato de que não há unidade estética, a produção vai da música instrumental ao rock, do regional ao samba, há uma diversidade e uma afinidade ideológica.

Alguns fatores contribuíram e ajudam a entender o fenômeno. Houve nos últimos anos uma significativa profissionalização dos músicos e produtores atuantes na cena. Parte dela é graças ao aporte financeiro injetado no mercado local pelas leis de incentivo, com destaque para a estadual, com dedução do ICMS. Graças às leis a maior parte desses artistas conseguiu gravar seus discos em condições adequadas, montar seus shows com qualidade técnica compatível com os padrões de mercado, adquirir equipamentos e instrumentos de qualidade, além dos produtores terem se capacitado, formalizado suas empresas, etc.

Outro fator importante é o advento da organização inédita dos músicos. Nos últimos anos surgiram algumas entidades e um fórum que ganhou reconhecimento da sociedade e abriu um canal de interlocução com o poder público. A partir dessa articulação foi lançado um programa inédito no país que engloba um edital de passagens, um edital de circulação nacional e um programa de exportação.

Iniciativas como o Reciclo Geral, realizado em 2002, organizado pelos próprios músicos e considerado um marco dessa nova geração, serviram como modelo e incentivo para outras ações. Serviram também para provar a existência de um público ávido por novidade, que naquela ocasião lotou o Reciclo Asmare Cultural durante três meses para ouvir exclusivamente composições inéditas.

Essa música começa a ser reconhecida no Brasil e no mundo. Prova disso são os convites de festivais e casas de espetáculo que começam a surgir. O público local já percebeu esse fenômeno e acompanha a cena com avidez. Tudo indica que somente os elos da cadeia responsáveis pela veiculação e consumo local são os únicos ainda insensíveis ao fenômeno. Só isso explica o fato dessa música não tocar nas rádios locais (com exceção de programas específicos da Rádio Inconfidência, da UFMG Educativa e da Rádio Guarani) e não haver sequer uma casa de shows onde essa produção seja acolhida com um mínimo de dignidade.

Entenda-se por acolhimento digno o cumprimento mínimo de exigências universais para que a música autoral seja apresentada, a saber: som e luz compatível com a formação e tratamento acústico de acordo com o espaço; palco com dimensões adequadas à formação; cachê ou porcentagem mínima da bilheteria; apagamento da luz da platéia e interrupção do serviço dos garçons durante a apresentação; tempo máximo de 2h incluindo possíveis intervalos; alimentação dos músicos; pagamento dos direitos autorais; contrato assinado.

Essas condições, que podem parecer exageradas se considerada nossa situação atual, são comuns em todas as casas de espetáculo que investem no perfil de música autoral em qualquer parte do mundo. Palco, luz, tratamento acústico e atenção do público, redução da luz e interrupção do serviço de atendimento das mesas (em algumas casas os garçons atendem com lanterninhas) são detalhes fundamentais para se conseguir uma ambientação adequada.

Mas sabemos que não se modifica esse atual contexto da noite para o dia. É gradual a profissionalização dos espaços e a resposta do público ao investimento é inevitável. Esse é o primeiro passo, estamos aqui propondo um diálogo aberto com os programadores e diretores de rádios e os donos das casas de shows em Belo Horizonte.

COMUM – Cooperativa da Música de Minas

Domingo, 17 de Maio de 2009

Discografia para baixar

Tenho o prazer de comunicar que os três discos que eu gravei estão agora disponíveis para baixar gratuitamente. O melhor é que estão todos nos blogues de música onde você encontra não só a produção fonográfica recente, mas parte significativa do acervo das grandes gravadoras. São discos que estão fora de catálogo há anos, muitos deles nunca editados em CD e por isso atingindo preços exorbitantes nas lojas especializadas, principalmente no Japão. Nos blogues qualquer um pode baixar de graça e conhecer o conteúdo dessas bolachas, que afinal, é o que importa!

Eu só tenho de agradecer e apoiar os responsáveis pela iniciativa, não só por terem se dado ao trabalho de subir meus discos mas, principalmente, pelo fato de terem me possibilitado conhecer de ouvido muita coisa que eu tinha só ouvido falar.

A Outra Cidade (2003) no Música da Boa


Danaide (2006) no
Um que Tenha

Autófago (2008) no The Bossa Blog


Espero em breve disponibilizar também os meus livros, assim que conseguir finalizar a re-diagramação deles, já que perdi os arquivos originais num HD queimado.

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Técnica infalível a serviço do glorioso!

Desde pequeno torço pelo glorioso Metaluzina, de Barão de Cocais. Fui meia-esquerda e batia os pênaltis no dente-de-leite e depois nas categorias subsequentes. Tinha uma técnica infalível de concentração que desenvolvi lendo “O Kung Fu de Bruce Lee”. Naquela época me parecia uma associação natural.

Parei de jogar bola aos dezessete, dezoito anos e faz muitos anos que não bato um pênalti. Não me lembro mais da técnica marcial. De alguma forma perdi o interesse por futebol desde que parei de jogar.

Assisti a todos os jogos da seleção brasileira na copa de 82. Foi o maior time que minha geração viu jogar. Eu tinha sete anos. Por isso todos os garotos da minha idade que gostavam de futebol tinham pelo menos duas grandes referências: Zico e Sócrates. O Galinho jogava pelo Flamengo e o Doutor pelo Corinthians.

Todo garoto da minha idade que gostava de futebol torcia por esses times por contigüidade, porque assim torciam pelos seus heróis. Por isso vejo com uma certa simpatia nostálgica essa conquista dos títulos estaduais pelo Flamengo e pelo Corinthians. É uma espécie de retomada simbólica do futebol mítico daquela seleção que Pasolini classificou como poesia. Nenhum jogador encarnou melhor essa característica cada vez mais rara no futebol-força atual do que os três Ronaldos falantes do português.

Ronaldo Nazário, particularmente, me chamou a atenção para o futebol novamente quando surgiu no Cruzeiro. Comecei a torcer por contigüidade. Depois acompanhei sua carreira de longe, eventualmente, principalmente no Barcelona e no Real Madrid, com as facilidades das transmissões a cabo. Seu retorno como fênix ressuscitada num time nacional, nas circunstâncias em que ocorreram, dão um caráter épico à sua trajetória. Todos os caras da minha idade que jogaram futebol na infância tem de reconhecer o fato incontestável de que ele é o melhor jogador da nossa geração. Ele é tudo que nós queríamos ser nas nossas peladas de várzea porque conseguiu realizar em ato nosso desejo de jogar com a categoria de Zico e a inteligência de Sócrates.

E digo tudo isso sem deixar de lado minhas convicções e minha condição irrefutável de torcedor incondicional do glorioso Metaluzina! Qualquer hora dessas inclusive, vou disponibilizar aqui o hino que compus em homenagem ao maior orgulho dos pés-de-pomba.

Por hora estou pensando em voltar a bater pênaltis...

Sábado, 18 de Abril de 2009

Revista de Autofagia nº 3

Durante a semana eu pensei em várias pautas para esse poste. Podia falar das reformas da Lei Rouanet e da criação do Fundo Nacional de Cultura; da reunião que tivemos com o ministro Juca Ferreira para tratar desse assunto; do show que farei na próxima quinta no Parque Municipal, aqui em Belo Horizonte; da criação do meu perfil no twitter; da seleção para participar de um festival em Londres, no mês de novembro; dos shows que rolaram em Brasília e no Rio nas últimas semanas e das conversas com Tom Zé no camarim do Palácio das Artes; da participação no belíssimo e delicado show da Maísa no Teatro Alterosa; dos discos do Rafael Macedo, do Leo Minax e da Carol Saboya, que chegaram esta semana com canções minhas; da viagem que farei para Alagoas no início de maio; do seminário internacional sobre música que estou ajudando a organizar e da mesa que vou mediar na semana que vem; etc.

Acontece que hoje chegou da gráfica o terceiro número da Revista de Autofagia! Para quem não sabe é uma revista em papel que eu e Bruno Brum insistimos em publicar desde 2006. Entre burocracias com a liberação do recurso do fundo municipal de incentivo, a seleção do material, revisão, projeto gráfico e a edição estamos nessa batalha há quase um ano. Isso sem esquecer que o segundo número não teve, por assim dizer, um lançamento oficial. Chegamos a pensar em nem fazer mais lançamentos, ou no máximo lançar alguns exemplares do alto dos arcos do viaduto de Santa Tereza, num ato simbólico de desprendimento material e crítica ao mercado editorial estabelecido. Por fim resolvemos fazer tudo como manda o figurino e vamos marcar para breve o lançamento dos dois números de uma vez com coquetel, performance e autógrafo dos autores participantes.

Downloads

Resolvemos também disponibilizar os dois primeiros números em PDF:

Revista de Autofagia nº 1 (clique na imagem)


Revista de Autofagia nº 2 (clique na imagem)


Quero aproveitar e agradecer o pessoal que está ajudando a semear: Sandro Saraiva, Marcelo Terça-Nada, Leo Gonçalves, Reuben da Cunha e Marcelo Sahea


Serviço de utilidade pública

Para quem ainda não sabe, Bruno Brum se mudou para uma casa mais espaçosa, um condomínio no campo, onde se dedica, ao lado de sua mulher Helena Brun, à poesia, à criação de gatos Bengal e à arte de manipular imagens e textos de forma a conseguir o maior impacto e o melhor equilíbrio visual. Dê um pulo lá!


Improviso em Pequim

Por fim, deixo aqui esse longo poema épico do genial e tresloucado Allen Ginsberg, na tradução do Leo Gonçalves que incluímos (em versão bilíngüe) neste novo número da revista:

Eu escrevo poesia porque a palavra Inglesa Inspiração vem do Latim Spiritus, respiração, eu quero respirar livremente.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman deu permissão mundial para falar com candor.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque Ezra Pound viu uma torre de marfim, apostou num cavalo errado, deu aos poetas permissão para escrever no idioma vernacular falado.
Eu escrevo poesia porque Pound indicou aos jovens poetas do Ocidente que observassem as palavras da escrita pictográfica chinesa.
Eu escrevo poesia porque William Carlos Williams que vivia em Rutherford escreveu o
Novajerseyês “I kick yuh eye”, perguntando, qual a medida disso em pentâmetro iâmbico?
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que falava
Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque meu jovem amigo Gary Snyder sentou-se para olhar seus pensamentos como parte dos fenômenos do mundo exterior exatamente como numa mesa de conferência em 1984.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo porque a poesia pode revelar os meus pensamentos, curar minha paranóia e também a paranóia de outras pessoas.
Eu escrevo poesia porque minha mente vagueia entre assuntos de sexo política meditação Buddhadharma.
Eu escrevo poesia para fazer boa imagem da minha própria mente.
Eu escrevo poesia porque tomei os Quatro Preceitos do Bodhisattva: a sensibilidade a ser liberada das criaturas é inumerável no universo, minha própria ignorância gananciosa corta a infinitude da verdade, as situações em que encontro a mim mesmo enquanto o céu está bonito são incontáveis, e o caminho da mente desperta não tem fim. Eu escrevo poesia porque essa manhã eu acordei tremendo com medo o que é que eu iria dizer na China?
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram suicídio, alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia por causa do meu pai que recitava o poeta Inglês Shelley e o poeta americano Vachel Lindsay em voz alta dando exemplo grande alento de inspiração.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos.
Eu escrevo poesia porque milionários de Leste a Oeste dirigem Limousines Rolls-Royce e pobres não têm dinheiro nem para ir ao dentista.
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomas se apaixonam por garotos e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque não tenho responsabilidades dogmáticas de um dia para o outro.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia para me voltar e falar com Whitman, jovens aos dez anos falam com
velhas tias e tios que vivem ainda nas proximidades de Newark, Nova Jersey.
Eu escrevo poesia porque ouvi negro blues no rádio em 1939, Leadbally e Ma Rainey.
Eu escrevo poesia inspirado pela alegre juventude das canções envelhecidas dos Beatles.
Eu escrevo poesia porque Chuang-Tzu não podia dizer se era homem ou borboleta, Lao-Tzu disse que a água flui montanha abaixo, Confúcio disse para honrar os mais velhos, eu quis honrar Whitman.
Eu escrevo poesia porque ovelhas e gado superalimentados vindos da Mongólia para o Ocidente Selvagem dos Estados Unidos destroem a grama nova e a erosão cria desertos.
Eu escrevo poesia calçando sapatos com pele de animal.
Eu escrevo poesia “Primeira idéia, melhor idéia” sempre.
Eu escrevo poesia porque não-idéias são compreensíveis exceto se manifestadas em
determinados minutos: “Não-idéias mas nas coisas”.
Eu escrevo poesia porque o Lama Tibetano diz, “As coisas são símbolos delas mesmas”.
Eu escrevo poesia porque as manchetes de jornal são um buraco negro em nossa
galáxia-central, nós somos livres para noticiar isto.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a
bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque meu segundo longo poema Kaddish homenageava o parinirvana da minha mãe num hospital psiquiátrico.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Moscou, segundo Stalin, exilou 20 milhões de Judeus e
intelectuais na Sibéria, 15 milhões deles nunca voltaram para o Café Stray Dog de São Petersburgo.
Eu escrevo poesia porque eu canto quando sinto que estou sozinho.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem, então eu
me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha mente se contradiz, um minuto em Nova York, o próximo minuto nos Alpes Dináricos.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque sem razão sem porquê.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Maísa nas Alterosas

“Disco e show da Maísa Moura é um bordado táctil, pictórico, na tessitura da canção. Um sítio, um som que te pega pela mão, diante dos imbricamentos da letra e do tom e ponto a ponto palmilham linhas que vão se fazendo diante dos acasos e dos ocasos. Evidenciando os contrastes de cor e luz, por meio de uma banda que se souberam acolher e de uma interpretação sutil, singular. Um disco para se lançar no outono, porque outonos estão se tornando raros, de uma cantora inteligente, de voz rara.”
Renato Negrão – poeta e compositor
http://nocalo.blogspot.com/


“As interpretações de Maísa realizam no estúdio as sutilezas que se consegue ape¬nas na liberdade dos ensaios sem compromisso. Seu canto não é classificável. É um canto fluido, dotado de uma textura tão áspera quanto leve; tão forte quanto delicada. Uma voz que se sente com o tato; encarnada; viva; Maísa é, sem dúvida, a mais criteriosa cantora da mais recente geração de intérpretes mineiras.”
Renato Villaça , compositor e produtor musical
http://www.renatovill.blogspot.com


“Moira convida o ouvinte a um universo de profundidade e sensibilidade. Ousada, mas sem pretensão e por isso precisa e certeira Maísa Moura desponta na cena mineira com au¬tenticidade e um potencial de grandes realizações. Suas pesquisas resultaram em um disco requintado, que nos transporta para um ambiente camerístico - ou ‘Roseano’ como pontuou Titane – em todos os casos bem expressivo. É um disco para ser apreciado com o mesmo cuidado e dedicação com que foi feito. Trilha sonora para todos os dias descobrir um novo toque, um outro timbre ou um verso arrebatador.”
Ludmila Ribeiro – jornalista
http://oraboa.blogspot.com


Um CD delicado, em que os arranjos minimalistas e a interpretação suave parecem estar a ser¬viço da poética das letras, como se fossem veículos para ressaltar a força do texto. Essa é a pri¬meira impressão que fica ao se ouvir o álbum «Moira», da cantora Maísa Moura. Além do viés calcado muito na força expressiva das letras, outro fio condutor que confere unidade ao trabalho diz respeito aos arranjos. Essa também foi uma preocupação de Maísa Moura, que escalou o trio de arranjadores Avelar Jr., Guilherme Castro e Vladmir Cerqueira. A sonoridade limpa, sem muitos instrumentos, é eficaz e enriquece melodicamente cada inter¬pretação.
César Macedo – jornalista
Jornal Hoje em Dia

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Tomando o Poder

Daqui a pouco sigo para Brasília, onde vai acontecer a segunda etapa do Caminhos Poéticos da Canção, no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), o mesmo projeto que participei semana passada no Rio.

Desta vez eu e meu parceiro Kristoff Silva vamos participar de um debate mediado pela jornalista Patrícia Palumbo e depois mostraremos algumas coisas dos nossos repertórios. Primeiro ele, depois eu, por fim talvez façamos alguma coisa juntos (combinaremos isso na passagem de som, vocês sabem...)!

O curioso é que, desde terça-feira desta semana, Lula está despachando do CCBB enquanto o Palácio do Planalto entra em reforma. A previsão é que a nova sede do executivo fique por lá até 2010, quando devem terminar as obras a tempo das comemorações pelos 50 anos da capital criada por Lúcio Costa.

Acho que nunca estive e nem estarei numa situação tão estratégica e oportuna para tomar o poder! Quem mais se candidata?

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Com Tom Zé

Fui convidado a tocar na abertura do show que Tom Zé fará em Belo Horizonte no Grande Teatro do Palácio das Artes na próxima quarta, dia 25 de março. 

A última apresentação que assisti do baiano foi em São Paulo três anos atrás quando ele lançava o sarcástico Estudando o Pagode. Naquela ocasião escrevi: "Mais afiado e lúcido do que nunca, Tom Zé pensa e faz pensar a cultura brasileira, levanta bandeiras que hasteadas por qualquer outro soariam panfletárias. Ele no entanto escapa ileso com seu humor irônico e sua sutileza perspicaz. Me lembrei de Jello Biafra, do Dead Kennedys pela sagacidade e acidez crítica. Me lembrei também de Denise Stoklos. Sei que poucos artistas me deram a impressão de domínio tão completo do palco, o êxtase,  a contenção, o improviso e a precisão cirúrgica do corte no momento certo!". Subscrevo! 

Depois disso o redivivo tropicalista já rodou o mundo, lançou mais dois discos indispensáveis e passou a escrever frequentemente num blogue: tomze.blog.uol.com.br

Aqui Tom Zé vai apresentar as canções de seu mais recente trabalho, "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza", o didático (todo disco de Tom Zé tem algum ensinamento escolástico) e delicioso disco em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. 

Tocar antes de um senhor de 72 que tem lugar de destaque na história da cultura brasileira não é tarefa fácil. Principalmente quando esse sujeito é uma de suas principais referências! 

Seja como for, faz tempo que não me encontro com o marido de Dona Neusa e vai ser ótimo re-encontrá-lo nesta situação: provavelmente durante a passagem de som. Não combinamos nada e acho improvável que tenhamos tempo para ensaiar alguma coisa juntos. Mas quem sabe?

Por determinação contratual não poderei levar minha banda. Sendo assim me apresento em formato acústico e reduzido: Guilherme Castro na viola e no violão de aço e Rafael Azevedo no violão de aço e no baixolão. No repertório algumas coisas do Autófago e outras que devem entrar no próximo disco, Cavalo-Motor, previsto para 2010.

Deixo aqui três dicas à queima-roupa:

Nave Maria, lançado pela RGE em 1984, seria o último disco por uma grande gravadora e é o prenúncio do ostracismo, que se arrastaria por todos os anos oitenta até o advento de David Byrne. É um disco seminal, um dos meus preferidos. Infelizmente menosprezado pela crítica e desconhecido do público.

Tropicalista lenta luta, o livro memória-crônica-entrevista-depoimento lançado pela Publifolha em 2003. Fica na minha estante ao lado de "Os Últimos Dias de Paupéria" do Torquato e "Verdade Tropical" do Caetano. É um equilíbrio instável...

Fabricando Tom Zé, documentário dirigido por Décio Matos Jr. durante a turnê européia de 2005, mistura formatos (película, video, animação) e formas (entrevistas, imagens de shows, bastidores, processo criativo) para tentar dar conta da diversidade do documentado. Entre vaias e aplausos, mea-culpa e desabafos, a cena em que o iraraense dá um esporro no técnico durante a passagem de som no Festival de Montreux, na Suíça, é antológica!

Mais informações aqui.

Ouvi dizer que os ingressos estavam se esgotando!

Domingo, 22 de Março de 2009

Música Minas

Todos estão convidados para o lançamento dos Editais do Música Minas - Programa de Estímulo à Música, parceria com o Fórum da Música de Minas. O programa envolve um edital de passagens, um edital de circulação nacional por algumas capitais, a confecção de um catálogo, produção de um documentário, criação de um portal e a participação de uma delegação mineira em feiras nacionais e internacionais.

Data: 24 de março de 2009

Horário: 15 horas
Local: Palácio da Liberdade - Belo Horizonte - Minas Gerais
 
Para confirmar presença:

Telefone (31) 3299-4068
E-meio: cerimonial@governo.mg.gov.br

Mais informações sobre o programa: www.programamusicaminas.com.br

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Show e debate no Rio

Sigo hoje para o Rio onde participo de um projeto chamado Caminhos Poéticos da Canção, no Centro Cultural do Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66, Teatro II) . A idéia é a realização de pequenos shows seguidos de debates sobre a imbricação entre poesia e música na tradição popular brasileira.

Participam do projeto nomes como Arnaldo Antunes, Chico César, Luiz Melodia, Fernando Brant, Rodrigo Bragança, Danilo Moraes, Luiz Tatit, Alice Ruiz, José Miguel Wisnik, Ricardo Cravo Albin e Arthur Nestrovski.

A programação de amanhã é a seguinte:
12h30 - “A Canção Popular Brasileira Contemporânea: Novos Horizontes”
Show de Makely Ka e participação de Ricardo Cravo Albin, Danilo Moraes e Rodrigo Bragança. Apresentador: Wandi Doratiotto.

18h30 - “A Canção Popular Brasileira Contemporânea: Novos Horizontes”
Show de Danilo Moraes e Rodrigo Bragança e participação de Ricardo Cravo Albin e Makely Ka. Apresentador: Wandi Doratiotto.

O projeto acontecerá sempre às terças-feiras (dias 17, 22, 31 de março), às 12h30 e 18h30, com repertórios e temas diversos.

Os ingressos custam R$6,00.

Nova Consulta

O Fórum da Música de Minas realizará uma Consulta Pública para o Edital de Circulação Nacional a ser lançado em breve pelo Governo do Estado.

O Edital de Circulação Nacional do Programa Música Minas tem por objetivo formar público para os artistas mineiros, estreitar relações culturais e comerciais e reposicionar nacionalmente a música produzida em Minas. Para tanto, realizará a circulação de artistas residentes em Minas Gerais por capitais brasileiras no período de julho a dezembro 2009.

A concessão do apoio financeiro será viabilizada com recursos oriundos do convênio estabelecido entre o Fórum da Música de Minas Gerais e a Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. O Fórum é formado pelas entidades SIM (Sociedade Independente da Música), AMMIG (Associação Artística dos Músicos de Minas Gerais), COMUM (Cooperativa dos Músicos de Minas), CMMI (Circuito Mineiro de Música Independente) e AMMUCE (Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina).

A consulta tem como objetivos a apresentação do edital desenvolvido pelo Fórum ao setor musical mineiro e o recebimento de sugestões que possam ser incorporadas ao texto final. A consulta acontecerá no dia 17 de Março, às 19 horas, no auditório do SEBRAE-MG localizado à Av. Barão Homem de Melo, 329 - Nova Suíça. A lotação do auditório é de 200 lugares e a participação seguirá a ordem de chegada, respeitando-se a capacidade do local.

Domingo, 15 de Março de 2009

A força da união de letra e melodia

Alice Ruiz, Makely Ka, Siba e Vitor Ramil falam de seu trabalho relacionado à poesia e do poder expressivo da canção brasileira

Lauro Lisboa Garcia
Jornal O Estado de São Paulo
13 de março de 2009


Numa cena do documentário Palavra (En)Cantada, Adriana Calcanhotto desconversa sobre a grande pergunta em questão: letra de música é poesia? Diz, bem-humorada, que a vida é curta demais para perder tempo com essa discussão. Adriana conviveu e trabalhou em férteis parcerias - em discos como A Fábrica do Poema - com Waly Salomão (1943-2003), um desses artistas que transitavam com desenvoltura entre a poesia e a letra de música. Vinicius de Moraes (1913-1980), o principal deles, Antonio Cícero, Arnaldo Antunes, Paulo César Pinheiro são outros bons exemplares enfocados no filme. Mas há outros mais que fizeram história na MPB: Torquato Neto (1944-1972), Paulo Leminski (1944-1989), Patativa do Assaré (1909-2002), Abel Silva, Cacaso, Geraldo Carneiro.

Há compositores que reconhecem a força poética da canção brasileira, a mais viva expressão cultural do País. Em entrevista recente ao Caderno 2, o pernambucano Alceu Valença defendeu: “Minha música é poesia.” Para falar sobre o tema, o Estado entrevistou três compositores e uma letrista poeta, que não estão no filme de Helena Solberg: o gaúcho Vitor Ramil, também escritor, o mineiro Makely Ka, o pernambucano Siba e a paranaense radicada em São Paulo Alice Ruiz, que foi casada com Leminski.

Um dos mais brilhantes em atividade hoje, Siba - que lançou na semana passada o álbum Violas de Bronze, com Roberto Corrêa - é herdeiro da tradição dos trovadores, referência inicial de Palavra (En)Cantada. Compõe seguindo procedimentos da poesia oral nordestina. “Essa discussão é engraçada porque parte do pressuposto de que o que é considerado poesia é a poesia literária. Meu ponto de partida é outro, é o que a gente chama de poesia rimada do Nordeste, que tem uma estética própria.”

“Trabalho para que o texto tenha vida própria, embora muitas vezes esse texto lido perca uma parte do encanto dele que depende do ritmo”, diz Siba. Ritmo é o que sobrou da poesia, “depois que ela se libertou da métrica e das rimas”, como observa Alice. A poesia dos cantadores nordestinos, como observa Siba, tem a música e o ritmo a serviço dela. “O poder encantatório dela vem muito em função do ritmo e da combinação das palavras. Por isso, pra gente é importante levar às últimas consequências o rigor das regras.”

Outro diferencial que Alice aponta é o timing: “O tempo do olho é diferente do tempo do ouvido. Para o ouvido você tem de ter uma coloquialidade de tal forma que a pessoa que te ouve seja envolvida imediatamente”, diz a poeta. Vitor Ramil concorda com ela: “A letra de música tem de ter uma ação imediata sobre quem ouve. É bom que a ação dela se prolongue no tempo, para que o ouvinte fique refletindo a partir da letra de uma canção. Talvez a poesia possa ser feita um pouco mais desencanada desse tipo de propósito.”

Como Siba, Makely Ka se relaciona com a tradição oral. “Nesse sentido Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik têm razão quando dizem que a gente tem uma tradição oral muito sofisticada, porque a letra da canção está muito próxima da fala.” Para Makely, uma boa letra de canção não precisa ser poesia, assim como “bons poemas não necessariamente dão boas letras”. “Fazer letra para uma melodia é uma mistura de poesia com palavra cruzada, porque você tem uma métrica estabelecida, onde se tem de encaixar a prosódia, a rima, enfim, vários elementos”, diz o poeta de Ego Excêntrico e compositor do CD Autófago.

Ramil, como Adriana Calcanhotto, não faz questão de separar os universos da letra e da poesia. Ele, que não é poeta, mas escritor de livros como Satolep (romance) e A Estética do Frio (ensaio), diz que seu trabalho literário guarda características da atividade de letrista. Além de canções com poéticas letras próprias, Ramil já musicou versos de Fernando Pessoa, Emily Dickinson e João da Cunha Vargas e prepara um álbum com oito poemas do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e outros de Vargas, com melodias dele. São poemas (que Borges escreveu como se fossem letras de milongas) reunidos no livro Para las Seis Cuerdas, de 1965. “Os poemas que costumo musicar fluem com naturalidade. Para mim, a palavra e a melodia são bem casadas.”

Com Alice Ruiz, autora de versos como o de Socorro (parceria com Arnaldo Antunes), o caminho é inverso: “Ao mesmo tempo em que tenho poemas musicados, tenho muitas letras feitas como tal. Uma boa letra tem de ter algumas características poéticas. Por exemplo: tem de ter uma ideia e uma trama na linguagem, o que a transforma em poesia, que case com a ideia.” Mas se a canção no Brasil tem esse papel que a poesia dos livros cumpre em outros países, isso para Alice se deve “muito à excelência da nossa canção”, opinião que Ramil endossa. “É mais um motivo pra gente caprichar”, brinca ela.



“Quero perder o medo da poesia/ Encontrar a métrica e a lágrima/ Onde os caminhos se bifurcam/ Planando na miragem de um jardim/ ... Eu astronauta lírico em terra/ Indo a teu lado, leve, pensativo.”

VITOR RAMIL

“Eu fiz da poesia minha ambrosia / Meu sustento, meu motor / Meu canto em agonia entra agora em afasia / E trás de dentro a carne em flor / Eu quis a boemia, a fantasia / O ornamento, o esplendor”

MAKELY KA


“Quem me dera fosse meu/ O poema de amor definitivo/ Se amar fosse o bastante/ Poder eu poderia/ Pudera/ Às vezes parece ser esse/ Meu único destino/ Mas vem o vento e leva/ As palavras que digo/ Minha canção de amigo/ Um sonho de poeta/ Não vale o instante vivo.”

ALICE RUIZ


“Na varanda da fazenda/ Está sentado um violeiro/ Que ponteia imaginando/ Os sonhos de um fazendeiro/ ...E o poeta passa a noite/ Procurando a rima exata/ Esfumaçada num café quente/ Numa caneca de lata/ E a noite paga as cantigas/ Com uma moeda de prata.”

SIBA

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Conexão no Interior

Sigo daqui a pouco para São João Del Rey. Hoje eu dou uma oficina sobre Contra-Indústria e amanhã apresento o show do disco Autófago. No show, que acontecerá no Largo São Francisco,  estarei acompanhado pela minha banda completa e contarei com a luxuosa participação da cantora portuguesa Susana Travassos, quem eu conheci ano passado durante a WOMEX em Sevilha, na Espanha. Ela vai cantar duas músicas inéditas que pretende gravar em seu próximo disco.

O show e a oficina acontecerão dentro da programação do Conexão Vivo. Confira a programação completa aqui.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Consulta Pública para Edital de Passagens

O edital tem como objetivo a promoção e difusão da música mineira no Brasil e no exterior. Dessa forma, financiará passagens aéreas a músicos, produtores, jornalistas, estudiosos e técnicos do setor, com o objetivo de possibilitar a sua participação em atividades culturais promovidas em âmbito nacional ou internacional.

A concessão do apoio financeiro será viabilizada com recursos oriundos do convênio estabelecido entre o Fórum da Música de Minas Gerais e a Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. O Fórum é formado pelas entidades COMUM (Cooperativa da Música de Minas), SIM (Sociedade Independente da Música), AMMIG (Associação Artística dos Músicos de Minas Gerais), CMMI (Circuito Mineiro de Música Independente) e AMMUCE (Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina).

A consulta tem como objetivos a apresentação do edital desenvolvido pelo Fórum ao setor musical mineiro e o recebimento de sugestões que possam ser incorporadas ao texto final. A consulta acontecerá no dia 04 de Março, às 19 horas, no auditório da Escola Técnica de Formação Gerencial do SEBRAE-MG localizado à Av. Barão Homem de Melo, 329 - Nova Suíça. A lotação do auditório é de 100 lugares e a participação seguirá a ordem de chegada, respeitando-se a capacidade do local.

Faça aqui o download do edital!

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Marcelo Sahea na área!


Mal-estar resultante de excesso de trabalho? Você precisa de Pletórax na veia!

Passe para tomar um chá!


Alice me disse que está em casa aguardando sua visita!



Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Carnaval?

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Tipo Exportação

Eduardo Tristão Girão para o Estado de Minas

Nova geração de músicos mineiros se organiza para conquistar mercado na Europa e EUA. Artistas apostam em cooperativas para vencer os reflexos da crise da indústria fonográfica

Uakti já foi. Milton Nascimento voltou há pouco tempo. Toninho Horta, vira e mexe, vai. O Sepultura praticamente mora lá. Alguns artistas mineiros (que representam a música feita aqui, nasceram ou estão associados ao estado) há muito descobriram rotas internacionais para mostar o trabalho que desenvolvem. Cada um na sua. O que começa a chamar a atenção, sobretudo em Belo Horizonte, é a mobilização de artistas de gerações mais recentes, unidos para conquistar espaço nos palcos do exterior. Com a indústria fonográfica e a economia mundial em crise, muitos já perceberam que a espera até ser “descoberto” pode ser interminável. É preciso correr atrás – e, por vezes, pelas vias alternativas.

O mais recente fato envolvendo esse novo movimento foi o convite que cinco artistas mineiros receberam para tocar no festival SXSW, que será realizado entre 13 e 22 de março nos Estados Unidos. Logo mais, Somba, Érika Machado, Pato Fu, Vander Lee e Kristoff Silva arrumarão as malas para mostrar parte da diversificada produção musical mineira num circuito de shows que envolve cerca de 300 bares e espaços culturais de Austin, onde quase 2 mil bandas (19 dessas são de outros estados brasileiros) se apresentarão ininterruptamente.

A oportunidade foi proporcionada em agosto, durante o projeto Imagem & Comprador, que promove rodadas de negócios entre artistas locais e compradores internacionais de música. Desenvolvido pela Brasil Música & Artes em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o projeto foi realizado em Belo Horizonte pela Cooperativa da Música de Minas e Sebrae, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e Fórum da Música de Minas Gerais. Tanto a cooperativa quanto o fórum são entidades criadas por músicos da cidade.

“Queremos fazer muitos contatos, ver os shows e conhecer gente do mundo inteiro”, afirma Leo , do Somba, que fará seu primeiro show internacional. Se cantar exclusivamente em português atrapalha? “O público desse festival estará lá para ver coisa nova, diferente mesmo. Por isso estão indo bandas do mundo inteiro para lá, e não a mesmice. Fazemos rock, mas o unimos a elementos brasileiros, como o baião. Vamos levar o português cantado e o rock que não é o norte-americano”, responde.

NEGÓCIOS “As pessoas não conhecem nossa música, no máximo, Milton Nascimento. Às vezes, não sabem nem localizar Minas Gerais no mapa. Música e qualidade a gente tem, só falta nos organizarmos”, acredita o cantor e compositor Makely Ka. Ele esteve recentemente na Espanha, onde participou da feira de música Womex. Na ocasião, recebeu convite para retornar ao país em dezembro, para discutir possibilidades de intercâmbio cultural entre Minas Gerais e a região da Galícia. Resultado: acordo entre os dois lados deverá ser assinado mês que vem, prevendo semana de Minas na Galícia e vice-versa, incluindo não apenas música, mas também teatro, cinema e literatura.

“A Galícia pode servir de plataforma de lançamento da música mineira na Europa. Trabalhamos com o conceito de contraindústria, que não é a mesma lógica de 10 anos atrás, de ser descoberto por uma gravadora. Não é por acaso que fizemos uma cooperativa. Não queremos entrar na lógica da grande indústria, que está à beira da falência. Comércio justo e economia criativa são conceitos que perpassam nossa proposta”, explica Makely, presidente da Cooperativa da Música de Minas. “Não tenho dúvida de que a cena mais efervescente do país nesta década está em Minas. Aqui não há muitos guetos. As pessoas se frequentam e, a partir disso, surgem hibridismos. Isso não é comum, mas aqui acontece de maneira muito natural”, observa.

Outro fato aguardado com ansiedade pelos músicos mineiros é a publicação (provavelmente na segunda quinzena do mês que vem) do edital do Música Minas, programa de estímulo desenvolvido pela Secretaria de Estado da Cultura e representantes da classe musical do estado. Serão duas frentes de atuação: circulação estadual e nacional de artistas mineiros; e exportação da música produzida em Minas, o que prevê a inclusão de artistas em feiras de música nacionais e internacionais, produção de portal interativo e 166 passagens nacionais e internacionais para músicos mineiros se apresentarem no Brasil e exterior.

TOLERÂNCIA ZERO

“A aposta é que existe mercado para os mineiros, sim. Temos história e histórico para isso. A música do Milton, por exemplo, foi a que mais despertou interesse lá fora, depois da bossa nova”, diz o cantor e compositor Kristoff Silva, que embarca mês que vem para fazer show nos Estados Unidos. Mais do que nunca, ele acredita na divulgação do próprio trabalho por meio de shows, em vez de discos, cuja gravação se tornou “banal”. “Acho que a música mineira de hoje tem tolerância pequena à redundância. Temos música apaixonada por passeios harmônicos e de arranjo, pela palavra e por trair expectativas que o rádio constrói”, avalia.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

100 de Carmen, 50 da Revolução



No centenário de nascimento de Carmen - nossa cantora mais importante em todos os tempos - é curioso esse video gravado em 1941 dentro dos estúdios de Hollywood. Antes da revolução, em 1959, Cuba era simplesmente um cassino frequentado por magnatas americanos nos finais de semana. Hoje, com Fidel afastado e Obama no poder, cogita-se a possibilidade dos norte-americanos voltarem a frequentar as praias de Havana. Enquanto isso, Carmen inspira a próxima edição da semana de moda de São Paulo, ou como prefere o pessoal da Daslu: "SP Fashion Week". E não preciso dizer mais nada sobre "disseram que voltei americanizada..."! Será que essa seria uma questão hoje?

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

BaixaCultura

Reuben é um sujeito que vive em ilhas oceânicas e mantêm relações restritas com o continente. Soube dele pela primeira vez através da Ludmila Ribeiro, que foi sua colega no Rumos Jornalismo Cultural de 2004/2005. De lá pra cá estreitamos relações e ele colaborou na primeira edição da Revista de Autofagia (link ao lado) e acaba de enviar traduções para a próxima edição que, ao que tudo indica, fica pronta em fevereiro. Atualmente ele mantêm (e eu mantenho o circunflexo ou não?) um dos espaços mais bacanas da blogosfera, o BaixaCultura, onde trata de Jornalismo e Cultura Livre.

Nas últimas semanas eu vinha tentando responder algumas perguntas que ele me enviou e cheguei a pensar que o cara havia desistido da entrevista por culpa exclusiva da minha lentidão, esparramada entre aviões, trens e ônibus onde eu abria meu lap top e tentava reencontrar o fio da meada. Mas eis que entro hoje no blogue e está lá publicada, com direito a texto de apresentação e fotos, como manda o figurino do bom jornalismo.

Se fosse você aproveitava e dava uma conferida nos postes anteriores e nos links, que são satisfação garantida!

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

São Paulo em 455 sotaques

Estou na paulicéia fazendo a produção executiva da cantora portuguesa Susana Travassos que vai se apresentar dentro de um projeto do Sesc Pompéia chamado Sotaques Paulistas. A idéia é reunir intérpretes que representam as várias influências na formação do "sotaque" musical paulista com sua mistura de etnias, línguas e religiões. Além da gaja estarão no palco a cantora brasileira de origem judaica Fortuna, o grupo de tambores japoneses Himawari, a cantora italiana Mafalda Minnozzi e o maranhense Zeca Baleiro. Todos serão acompanhados pelo Karnak de André Abujamra.

Fica a dica para quem estiver em Sampa neste final de semana!

Onde: Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93)
Quando: Dias 23, 24 e 25 de janeiro. Sexta e sábado, às 21h e domingo, às 18h.
Teatro - Classificação indicativa: 12 anos
Quanto: R$ 5 a R$ 20
Telefone para informações: (11) 3871-7700

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

O som, a fúria e as andorinhas que virão

Kiko Klaus, Makely Ka e Pedro Morais formam um belo mosaico dos descaminhos apontados pela música de matriz popular feita em BH.

Jornal O Tempo de 02 de janeiro de 2009
Israel do Vale


A cena independente de música das Minas Gerais apagou as luzes de 2008 em grande estilo, com shows no Rio de Janeiro de três dos artistas de maior relevo na nova safra. Kiko Klaus, Makely Ka e Pedro Morais formam um belo mosaico dos descaminhos apontados pela música de matriz popular [e ímpeto roqueiro] feita atualmente em Belo Horizonte. Cada um ao seu jeito, demarcam com clareza o estágio de maturidade estética e de compreensão do novo papel do artista neste momento de impasse vivido pelo mercado do disco, mundialmente falando. Com referências variadas, os três mosqueteiros despiram-se de seus egos e desapearam dos interesses isolados para unir forças numa expedição de grande poder simbólico para o momento, na [ainda rara, no meio artístico local] linha do “um por todos e todos por um”.

É de se celebrar, especialmente, o enlace final que reuniu os três num improviso [indescritível, de tão bacana!] no segundo dos dois shows, na casa noturna Cinemathèque, em Botafogo - em que pese certo ar blasé de Makely, fazendo o tipo “tou aqui, mas não tenho nada com isso” e mandando ver num excepcional quase-free-style-proso-poético, em rap/ente. A Kiko Klaus já dediquei uma coluna inteira destas minhas mal-traçadas, recentemente, por ocasião do seu primeiro disco solo. E o show apenas reitera a coerência do seu posicionamento artístico, a organicidade entre discurso e performance, a consistência de arranjos cuidadosos, sem floreios excessivos. É de se notar, contudo, o momento especialmente feliz de uma geração talentosíssima dos jovens músicos [na maioria, na faixa dos 20 e poucos anos] que acumularam a retaguarda de Kiko e Pedro, assim como os que deram suporte a Makely. De Pedro Morais sou suspeito para falar. Mas faço questão de manifestar a felicidade de vê-lo alternar o palco com Kiko e Makely e do que esta aproximação possa ajudar a despertar nele, às vésperas da gravação de seu segundo disco - que terá produção do estrelado Chico Neves, uma das figuras ilustres da qualificadíssima platéia, ao lado de pares como Jongui e o sempre alerta Hermano Vianna, farol de todas as cenas.

Makely Ka foi para mim a maior das surpresas. Porque parece ter, finalmente, encontrado embocadura para o tom nervoso [irônico, ácido] das suas letras. Não é de hoje que o reputo no hall dos principais letristas da sua geração - e não apenas nas Gerais. Mas ainda não tinha visto uma interpretação sua que estivesse à altura delas. Cantor de limitações evidentes [embora eu duvide que ele seja capaz de admitir isso...], Makely talvez tenha renascido como vocalista a partir do nascimento de seu filho. Explico: Makely é casado com Maísa Moura, cantora de um timbre de voz terno, afinadíssima. Com a gravidez, a parceria artística que mantinha os dois juntos no palco teve de ser apartada em dado momento. E Makely precisou reinventar-se. Bom para os dois, aparentemente. A ponto de Maísa também ter lançado disco solo após isso. Cantar bem é um termo perigoso e quase abstrato - que o diga Chico Buarque, afinadíssimo em sua sublime voz de taquara rachada [e, sim, eu tenho consciência do risco de ser apedrejado nas ruas por falar algo assim].

Se cantar “direitinho” ou “bonitinho” fosse mesmo requisito essencial, talvez a influente cena pernambucana [onde isso parece ser tratado como crime inafiançável!] jamais houvesse existido. Do ponto de vista da performance, Makely vale-se no momento de uma retaguarda formidável, com uma banda de dominância jovem e uma pegada acentuada e firmíssima [nos quesitos pulsação e distorção], na medida certa. Na nova versão, turbinada e furiosa, Makely mantém-se atento ao sabor da poesia - uma fonte que lhe é cara, posta a serviço de princípios e inquietações potencializados pela sua formação em filosofia. E há margem ainda para lapidar isso no palco, sem dúvida - porque embora seja legítima a importância da compreensão das letras, é preciso dosar o impulso de explicar o contexto em que cada uma foi criada [ou será que elas não são capazes de falar por si, meu caro poeta?], em nome inclusive da fluência do show.

De outra forma: se toda letra precisa de legenda e se é preciso direcionar a sua interpretação, onde se abrigará o sentido expandido da poesia? Mas isso é mal menor, no conjunto da obra. Um detalhe apenas, no feliz exercício de um encontro geracional que merece ser festejado e replicado pelos palcos de Belo Horizonte, do interior de Minas e de outros Estados. Porque na nova ordem digital, em qualquer cena que mereça ostentar o termo, nenhum artista sozinho faz verão.

Israel do Vale, 41, é gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil, e escreve neste espaço aos sábados. israeldovale@uol.com.br

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Jornal O Globo


Três compositores radicados em Belo Horizonte se juntam para shows no Rio

Eles vivem e desenvolvem seus trabalhos em Belo Horizonte e chegam ao Rio - para shows, na segunda-feira, no Centro Cultural Carioca, e terça-feira, no Cinematheque, ambos às 21h, contando com as participações de Edu Krieger e da cantora espanhola Ugia Pedreira - como representantes da nova música de Minas Gerais. No entanto, desses três cantores e compositores, apenas Pedro Morais é realmente mineiro, do Vale do Jequitinhonha, enquanto Makely Ka nasceu no Piauí e Kiko Klaus, em Pernambuco. Mas, independentemente do grau de mineirice presente (ou não) em suas certidões e produções artísticas, seus discos oferecem pessoais contribuições ao pop brasileiro contemporâneo.

Também poeta, e que tem seu conterrâneo Torquato Neto como principal referência estética, Makely Ka lançou em 2008 o inquietante CD "Autófogo" - nele, através de um filtro neotropicalista, embala sua poesia com uma mistura de ritmos nordestinos e roupagem pop e eletrônica.

O que nos une é uma concepção harmônica característica da produção mineira - diz Ka. - O que nos separa talvez seja a nossa atuação fora do palco. Nas horas vagas, Pedro faz fotos, Kiko opera mesas de som, e eu participo de reuniões intermináveis...

Pedro Morais, que estreou em 2006 num ótimo CD homônimo - que co-produziu com Luiz Brasil e Flávio Henrique - e, no momento, prepara novo disco, agora em produção de Chico Neves, transita sem pudores estéticos entre o rock e o samba. Característica que ele diz ter em comum com seus dois parceiros nessa incursão pelos palcos cariocas.

A inquietação é um dos elos. Nós três somos urbanos, com uma musicalidade que beira o rock, apesar de nem sempre nossos discos deixarem claro essas inlfuências. Temos no palco, a mesma necessidade de valorização da palavra. O que separa? Eu diria que as abordagens sociais, filosóficas e emocionais nas canções são muito diferentes entre si. Algumas mais explícitas, agressivas. Outras subjetivas, mais melancólicas, leves.

Kiko Klaus, que, há três anos, dividiu um CD com o guitarrista colombiano Carlos Jaramillo e, este ano, lançou seu primeiro solo, "O vivido e o inventado", completa o perfil

O que nos une é a diversidade de influências, a ligação profunda com a palavra, com a poesia, com a canção popular de uma forma livre e sem rótulos. Fazemos sambas sem termos que ser apenas sambistas, rock sem sermos roqueiros, soul sem sermos Motown - diz Klaus, que também aponta as diferenças entre o trabalho de cada um. - O que nos diferencia, não diria que nos separa, é a diversidade de raízes, origens e experiências individuais. Isso, somado às vivências e às buscas estéticas de cada um, transforma-se no resultado particular das nossas criações.

Aproximações e diferenças que já estavam presentes em seus discos e que agora poderão ser conferidas no palco.

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Para quem estiver no Rio!

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

A parada agora é na Galícia!

Daqui a pouco embarco num vôo que vai cruzar o Atlântico e pousar no aeroporto de Barajas, em Madrid. Se a imigração não me barrar, de lá eu sigo até A Coruña, no norte da Espanha. Fui convidado pela Xunta da Galícia Consellería de Cultura e Deporte para participar de um festival chamado Cultur.gal. Vou falar sobre a cena musical em Minas e no Brasil e apresentar a Coopeativa de Música e as possibilidades de intercâmbio cultural. De lá sigo para Pontevedra, onde acontecerá o Festival Cantos na Maré. É um festival com participação de países da comunidade lusófona organizado pela cantora-militante Uxia Senle.

Esses contatos rolaram na WOMEX, que aconteceu em Sevilha entre o final de outubro e o início de novembro passados. Lá eu me encontrei com o Xabier Alonso, que havia conhecido no ano anterior. O Xabier é um dos nossos, uma espécie de operário da contra-industria musical galega.

A espectativa é firmar um convênio de intercâmbio cultural, com idas e vindas de artistas, produtores, técnicos e afins. Troca de informação, tecnologia e conhecimento. A primeira ação proposta é fazermos aqui em Minas uma Semana da Galícia e eles fazerem algo semelhante por lá. Isso tudo ainda no primeiro semestre do ano que vendrá!

O curioso é que a língua oficial deles, o galego, é a língua-tronco que deu origem ao nosso português. As relações com o Brasil não param por aí: desde o período colonial milhares de galegos aportaram no país, a ponto de se confundirem com os brasileiros. A imigração se intensificou durante o franquismo, período em que as culturas locais – assim como a catalã e a basca – sofreram uma grande repressão em nome da unificação da Espanha. Durante algumas décadas o galego ficou recluso aos interiores, escondido, clandestino em sua própria terra. A valorização da cultura galega passa portanto por um esforço em reestabelecer os vínculos afetivos com os países lusófonos, entre os quais o Brasil se destaca pela sua grande capacidade de acolhimento.

A maioria conhece a Galícia porque a região, além da gastronomia e da história secular, tornou-se um roteiro turístico que atrai todos os anos milhões de viajantes do mundo todo devido ao Caminho de Santiago de Compostela. Curiosamente, o roteiro turístico-religioso tornou-se mundialmente conhecido também em função do livro de um brasileiro, o “mago” Paulo Coelho. Não é segredo pra ninguém que a nossa Estrada Real foi inspirada no Caminho de Santiago. O que não aconteceu ainda é um mago para realizar o milagre da multiplicação dos turistas que pagam em Euro. Não prometemos nenhum milagre, mas, se o pessoal do turismo se ligar, pode rolar uma parceria estratégica aí. Isso dá pra fazer! Será?

Mas a música - que afinal é o que nos interessa aqui agora - é um dos elementos mais importante na identificação e valorização da identidade galega. Com influências da música celta e traços ibéricos, há vários pontos em comum com a música mineira, como certo caráter contemplativo, introspectivo, e a capacidade de comunicação universal. Além disso o galego é considerado um povo festeiro, e a prova disso são as centenas de festivais de arte e cultura que se espalham pelo território galego durante todo o ano.

Bora lá?

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Pensamentos Selvagens

Claude Lévi-Strauss, que completa hoje 100 anos de vida

"Coisa estranha é a escrita. Tudo indicaria que sua aparição não poderia deixar de determinar mudanças profundas nas condições de vida da humanidade; e que essas transformações deveriam ser, acima de tudo, de natureza intelectual. Depois de eliminarmos todos os critérios propostos para distinguir a barbárie da civilização, gostaríamos de reter pelo menos este: povos com ou sem escrita, uns capazes de acumular as aquisições antigas e progredindo cada vez mais rápido rumo ao objetivo que se fixaram, ao passo que os outros, impotentes para reter o passado além dessa franja que a memória individual é suficiente para fixar, permaneceriam prisioneiros de uma história flutuante à qual faltariam sempre uma origem e a consciência duradoura de um projeto.


Contudo, nada do que sabemos sobre a escrita e seu papel na evolução justifica tal idéia. Uma das fases mais criativas da história da humanidade situa-se no início do Neolítico, responsável pela agricultura, pela domesticação dos animais e por outras artes. Para chegar a isso, foi preciso que, durante milênios, pequenas coletividades humanas observassem, experimentassem e trasmitissem o fruto de suas reflexões. Essa imensa empreitada desenrolou-se com um rigor e uma continuidade atestadas por seu sucesso, enquanto a escrita ainda era desconhecida.


Se quisermos estabelecer a correlação entre o aparecimento da escrita e certos traços característicos da civilização, convém procurar em outro rumo. O único fenômeno que a acompanhou fielmente foi a formação das cidades e dos impérios, isto é, a integração num sistema político de um número considerável de indivíduos e sua hierarquização em castas e em classes. Em todo caso, esta é a evolução típica à qual assistimos, desde o Egito até a China, no momento em que a escrita faz sua estréia: ela parece favorecer a exploração dos homens, antes de iluminá-los. Há que se admitir que a função primária da comunicação escrita foi facilitar a servidão. O emprego da escrita com fins desinteressados, visando extrair-lhes satisfações intelectuais e estéticas, é um resultado secundário, se é que não se resume, no mais das vezes, a um meio para reforçar, justificar ou dissimular o outro."

Trecho do livro Tristes Trópicos, publicado em 1955
Tradução de Rosa Freire d'Aguiar

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Estadão de Hoje

Makely Ka é um dos destaques da Mostra de Arte Mineira


Poeta piauiense apresenta versão compacta do CD 'Autófago' na quinta-feira no Sesc Pompéia, em SP

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O poeta Makely Ka, piauiense que fixou residência em Belo Horizonte, entrou na música por força dos versos que escreve. Parte significativa de sua produção está no perspicaz CD Autófago, do qual faz uma versão compacta no show de quinta-feira, 20, dentro da Mostra de Arte Mineira Contemporânea, no Sesc Pompéia. A cantora Érika Machado e o projeto de música eletrônica Indiana Magneto são as outras atrações da noite.

No encarte do disco, que ele também disponibilizou todo na internet, Makely avisa que o CD é apenas o suporte do conteúdo musical, que é o que realmente importa. A música, porém, é o veículo para algo ainda mais importante: sua poesia. Exceção no pop-rock atual, em que muito se fala, mas pouco se aproveita, Makely brande idéias de conteúdo político, sexual, existencial, descreve paisagens urbanas cinzentas com traços secos, como o caos de fios elétricos embaraçados que ilustram a capa e o encarte do CD em preto-e-branco.

A sonoridade musical adequada para suas letras reflexivas é pesada, com rock, reggae, coco, funk e afins se alternando em seqüência sem intervalo entre as faixas. "Não tenho formação musical, venho da poesia. A partir de quando comecei a musicar os poemas que fazia, surgiram convites para parcerias. As pessoas me mandavam melodias para colocar letra e isso quase que virou a minha profissão", diz Makely. "Acho que há uma escassez de letristas no mercado e a gente acaba tendo de se desdobrar."

Em outros tempos, Makely seria classificado de "maldito", como o foram Walter Franco, Jards Macalé e Itamar Assumpção (1949-2003), dos quais se ouvem ecos inspiradores, como os de Arnaldo Antunes, em algumas faixas, como Endoscopia, Sorôco e O Meteoro. Autófago é um bom exemplo com versos como: "Eu me alimento da carniça do meu pensamento.../ Eu me deserto quando seca o lacrimejamento/ E me rebento quando aborto meus renascimentos".

Conterrâneo do tropicalista Torquato Neto (1944-1972), Makely o tem como uma das referências mais fortes. O outro é o paranaense Paulo Leminski (1944-1989). Deste ele absorve a ironia e certa influência da cultura oriental. De Torquato, a inspiração da personalidade artística, de articulador. "Os dois se colocavam com muita paixão em tudo o que faziam."

Se o inconformismo na democracia de hoje não tem o peso do risco nos tempos da ditadura, há outros oponentes a combater. Makely, de extenso currículo artístico, também é articulado nesse sentido. Foi ele um dos idealizadores do projeto Reciclo Geral, que deu ares de movimento aos jovens músicos independentes mineiros em 2005. Duas cantoras dessa geração, Patrícia Rocha e Maísa Moura, participam do CD, uma teia nervosa de metáforas e invenções.

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Mostra Contemporânea de Arte Mineira


Seguinte é esse, para quem estiver em São Paulo essa semana, vai acontecer uma grande mostra com música, teatro, dança, poesia, cinema e afins do que está sendo produzido hoje em Minas. A parada vai se dar de 18 a 23 de novembro no Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93).

Eu me apresento acompanhado dos autófagos na próxima quinta, dia 20, a partir das 19h na Choperia que fica dentro desse Sesc projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi a partir da antiga Fábrica de Tambores.

No mesmo palco vão estar os companheiros do coletivo Indiada Magneto e minha amiga Érika Machado.

Entre sem bater!