segunda-feira, 2 de novembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
WOMEX 2009
A parada agora é Copenhagen, capital do Reino da Dinamarca! Estou aqui participando da WOMEX, uma feira de música que acontece anualmente em algum país europeu. São mais de três mil inscritos de mais de 90 países. Hoje foi o primeiro dia e desta vez estamos com um estande, dividido com São Paulo e Espírito Santo.A feira acontece durante todo o dia e à noite os shows-case de artistas de todo o mundo. O foco aqui é a música contra-industrial, que alguns chamam de independente, outros de alternativa, etc.
Faz muito frio e começa a escurecer a partir das 17h. Estamos aqui desde domingo e hoje foi o primeiro dia em que saiu um sol tímido. Estamos a meia hora da Suécia e ontem fomos almoçar em Malmö. Nosso real vale aproximadamente três coroas dinamarquesas, ou krones. Ou seja, a relação com o euro é de sete para um, e isso causa alguma confusão no início quando precisamos fazer a conversão de cabeça para calcular o valor relativo de algum produto ou serviço. Em geral é tudo muito caro. Uma garrafa de 200 ml de água por exemplo custa 22 krones, ou seja, mais de 7 reais. Melhor comprar uma Calsberg que custa 20 krones. Sim, a cerveja é mais barata que a água e é uma das melhores do mundo. Coisas do Reino da Dinamarca!
Amanhã quero conhecer Christiania, uma comunidade autogestionada que surgiu em meados dos anos 70 a partir de princípios anarquistas. A cidade-livre, como é conhecida, resiste à pressão do governo que insiste desde os anos 80 em desalojar seus habitantes dos imóveis ocupados sob a alegação de que ali é o principal ponto de tráfico e de consumo de drogas pesadas - leis-se heroína - do norte da Europa. Hoje a situação ainda é instável, mas é fácil comprar haxixe e skank pelas ruas segundo me disseram. Depois da visita eu conto mais...
domingo, 18 de outubro de 2009
Autófago Acústico em BH
Vou me apresentar na próxima terça no projeto Para Todos do Conservatório da UFMG com uma formação basicamente acústica de violões, violas, e percussão. Nesse show, que é um desdobramento do pocket que eu fiz na abertura do Tom Zé no Palácio das Artes e no CCBB do Rio e de Brasília, todos no primeiro semestre, aproveito para apresentar, além de novas versões para canções de meu primeiro álbum solo, Autófago (Selo Musical / 2007), algumas inéditas que vão integrar o meu próximo trabalho, Cavalo Motor. O disco está em fase de pré-produção e a previsão de lançamento é para março de 2010. Vou estar acompanhado por Guilherme Castro (viola, violões e vocal), Rafael Azevedo (violões, baixolão e dobro) e Leo Dias (percussões).Vai ser um prazer encontrar vocês lá!
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Tupi na Rede
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Autofagia – Maturidade como consciência de si
“Meu compromisso é com meu próprio comprometimento”.
(Makely in “Autófago”)
Sobre o que ouço, permito-me um delírio sócio-filosófico que pode ser considerado pedante, como tantos delírios dessa natureza: no universo das questões relativas ao que seja Brasil, sob o fio da canção popular, o Autófago soa como signo de maturidade retomada: não me refiro a do artista em questão, a meu ver ascendendo em permanência; me remeto à canção realizada no Brasil e – por que não? – estendo essa minha impressão ao estado de coisas do país. Não se trata de “retomada de linha evolutiva”, fórmula falastrona e presunçosa dos que ainda a professam. Digo do reconhecimento da consciência de que somos o que somos. Penso, por exemplo – e paradoxalmente –, em um Paulo Leminski ciente da isonomia dos egos: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, estampada em bela camiseta que me foi presenteada, há anos, por Renato Negrão, parceiro musical de Makely. Portanto, maturidade aqui quer dizer consciência de si.
Por outro lado, pra além do pilar antropológico de biombos/mediações culturais, é preciso que se diga: a generosidade de Makely extrapola o objeto autoral que lhe pertence. Ela – essa generosa iluminação – está na postura com que, como um aedo andarilho, ele percorre o território do país carregando nas costas, literalmente, um volume de voz de gente e de instrumental diverso que, compactada, leva a cantar e tocar, onde quer que se encontre. Música que adota e aplica, que representa e lança, onde caminha e troca. E essa nobreza é incomum. Ele é nobre na relação com os pares.
Adiante disso, o que me fascina e causa incômodo são especialmente as canções do Autófago que me lançam em introspecção. Uma introspecção não melancólica, é bom que se diga. E isso – o incômodo –, de aparente contradição, é um bom sinal entre os critérios que considero em minhas audições. Justamente para o que parece ser um contraponto, ou uma dimensão individual daquela nobreza de que falei anteriormente. Há, como disse, canções no Autófago que me levam pr’um lugar que, involuntária e episodicamente, pratico; que só algumas canções são capazes de ativar em mim. Espaço do qual, no entanto – e, pela razão alegada -, não possuo o menor controle de onde se situa. Um lugar que não é familiar, mas é íntimo. Que não é estranho, mas misterioso.
“Plutão” é distante, penso. Será esse o lugar? A crer no que me ocorre quando ouço a canção de Makely com esse nome, sim. Melodicamente intimista, o texto de “Plutão”, por sua vez, é capaz de nos ensinar que não é tão grave assim viver só. Ser só, aqui, não constitui uma apologia à solidão, ao abandono, ao isolamento. Ao contrário, em sua leitura do ser só, Makely se reconhece no outro, na certeza de que o outro está, apesar de ausente. E tal ausência não causa qualquer transtorno: “não sinto mais falta de ar se você não vem”, “eu fico bem”. É essa identificação (ou seria mais apropriado pensar identidade?) que destaco do Autófago. É por aí que a evoco – a “Plutão”, de Makely – que, a meu ver, contribui para repensar as fronteiras ideológicas que historicamente apartam em dicotomias o indivíduo e o coletivo. Alguns poderiam dizer tratar-se de “antagonismos em equilíbrio”: “agora até mesmo quando bebo água a mágoa dessa sede me satisfaz”. A sonoridade de “Plutão” – mais precisa impossível – arremessa, no entanto, pra além do planeta, praquele canto misterioso de que falei, parte do exercício da introspecção.
Assim, também, me afeta “Equinócio” (que sacada sensacional do rio das velhas), de sonoridade intrigante e poesia no mesmo pé: quanta musicalidade reunida em vozes, texto e instrumentos. Quanto som “incômodo”, instigante. Quem disse que a noção de harmonia necessariamente mantém as coisas no lugar, em equilíbrio?
Mas não creio que seja o caso de transformar este comentário numa burocrática receita de audição, enumerando referências musicais e poéticas que as canções do disco Autófago me sugerem. Considerando as renovadas descobertas que cada escuta me traz – e “Autófago”, a canção, de marcante registro vocal e instrumental, é rica nisso –, aconselho o compartilhamento dessa com a experiência de quem o queira. Digo, pra ilustrar, que ouvir o disco do Makely às vezes bate como caminhar num final de tarde e de chuva de um sábado da adolescência pela rua da Bahia até a avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Numa época em que o Cine Metrópole ainda existia. Não dá pra sair ileso.
PS 1: creio ser oportuno dizer que o Autófago emparelha com O barulho do sol do meio dia, de Marcus Dias e Pantico Rocha, como os dois discos mais ouvidos por mim no ano que findou;
PS 2: Makely, antes mesmo do Autófago, passou a integrar, numa classificação minha, o time de artistas formado por Clodo, Climério, Clésio, Brandão, Torquato Neto, Naeno, Maria da Inglaterra. Qual é a lógica? São músicos, intérpretes, compositores nascidos no estado do Piauí e muito bem-vindos ao meu aparelho de som;
terça-feira, 29 de setembro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Conferência Livre de Música
Estamos construindo um documento que será finalizado na conferência do final do ano com as propostas do setor para a Conferência Nacional da Cultura, marcada para março do ano que vem. É lá que vai ser consolidado o Plano Nacional da Cultura, com a definição das diretrizes das políticas públicas culturais para o Brasil pelos próximos 10 anos.
Por definição, o que estamos fazendo aqui é uma Conferência Livre de Música, que é quando um grupo de 25 ou mais pessoas resolvem se juntar para discutir sobre um tema de forma objetiva. Nela, os diversos elos da cadeia produtiva dialogam, apresentam as dificuldades inerentes às suas profissões e buscam possíveis soluções a curto, médio e longo prazo. Nesse sentido cara área pode realizar sua conferência livre e construir propostas para serem levadas para a conferência nacional. É um movimento inédito para o setor musical, historicamente desarticulado e desmobilizado. O pessoal do cinema está se movimentando faz tempo, o teatro e a dança também. Ainda não vi nenhuma movimentação do pessoal da literatura. Será que vamos deixar passar o bonde da história mais uma vez?
sábado, 12 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Lançamento Revista de Autofagia 2 e 3

Haverá uma mesa de debates com os editores falando sobre o processo de edição da revista. Logo após o debate, serão exibidos vídeos e acontecerá um sarau com performance de Leo Gonçalves e Benjamim Abras, projeção de imagens de Marcelo Terça-Nada, leitura de poemas por Sérgio Fantini e outros colaboradores da revista. Todos os presentes estão convidados a participar da festa-sarau.
A Revista de Autofagia é um projeto desenvolvido desde 2004 por mim e pelo Bruno Brum. Na sua terceira edição, a publicação que reúne poesia, fotografia, artes gráficas, música, tradução, ensaio, cartum e uma variedade de outras manifestações artísticas conta já com um time de mais de cinquenta colaboradores de todo o país.
Referência no mercado editorial brasileiro, onde as raras publicações do gênero não costumam passar da primeira edição, a Revista de Autofagia vem colhendo elogios tanto de escritores consagrados como de novos criadores que buscam nela um espaço para a divulgação de seus trabalhos.
Com um projeto gráfico arrojado e um cuidado editorial que lhe garantem um lugar na estante – ao contrário da maioria das revistas que vai para o cesto – ela tem propositadamente uma periodicidade irregular, o que confere à publicação um charme adicional, gerando expectativa e especulações sobre as próximas edições.
O primeiro número foi publicado em maio de 2006. Os números 2 e 3 estão sendo publicados agora.
Conteúdo
O número dois da revista tem dossiê com o poeta Renato Negrão, desenhos de Sandro Saraiva, colagens de Vítor Martins Leal, poemas de Elisa Andrade Buzzo, Bruno Brum, Bernardo Amorim, conto de Hans Henny Jahnn traduzido por Marcus Tulius Franco Morais, entrevista com Pablo Capilé, Ahmad Jarrah e Lenissa Lenza do Espaço Cubo.
O terceiro número traz poemas de Allen Ginsberg traduzidos por Leo Gonçalves, Kenneth Rexroth e Bill Knott traduzidos por Reuben da Cunha Rocha, um dossiê com o escritor Sérgio Fantini, poemas de Micheliny Verunshck, Joca Reiners Terron, Júlia Studart, Manoel Ricardo de Lima, Mônica de Aquino, Paulo Scott, Guilherme Rodrigues, Fabrício Marques, Letícia Féres, litogravuras de Marcelo Terça-nada!, ensaio de Fernanda Salvo, conto de Jorge Rocha.
10 razões para se lançar uma revista hoje:
- Revistas são o veículo de publicação textual mais importante do meio literário dado o seu caráter informativo, sua circulação e seu espírito coletivo;
- Revistas são vitrines da produção de determinadas épocas, de determinados contextos;
- É através de publicações em revistas que a maior parte dos jovens criadores se lança no mercado;
- Revistas funcionam como parâmetro crítico para os leitores;
- Revistas funcionam como bússolas para escritores;
- Revistas são mais baratas que livros e portanto são mais democráticas;
- Revistas são vendidas em bancas de revistas;
- Revistas são periódicas e podem ser colecionadas como gibis;
- Revistas são lidas no banheiro;
- Há pouquíssimas revistas de poesia editadas hoje no país!
http://saborgraxa.wordpress.com/revista-de-autofagia/
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Estirar a Língua

História dos Nossos Gestos - Uma Pesquisa na Mímica do Brasil
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
sábado, 8 de agosto de 2009
Diário de Bordo: Buenos Aires

Sei que estou afastado, que abandonei este blogue nas últimas semanas. Mas as correrias tem sido muitas. Desde o ano passado que entrei no olho do furacão e não há previsão dos ventos soprarem mais brandos.
Nunca me obriguei a fazer ou publicar relatos de minhas viagens. Muitas vezes é um tédio, compromissos burocráticos, seminários, feiras, reuniões. Mas as pessoas ficam curiosas, sempre perguntam. Me lembrei de um texto do Walter Benjamin chamado “O Narrador”, onde ele diz que o narrador é, por definição, um viajante, e que dele não se espera nada menos que o relato do novo, do desconhecido. Nesses tempos de Gloogle Earth, Wikipedia, Youtube e Twitter nada é tão novo e desconhecido ao redor do planeta. Mas nem por isso as pessoas pararam de se interessar pelo relato dos viajantes.
Vou falar então de algumas coisas que foram novidades para mim nessas viagens recentes - algumas nem tão recentes - e que quero compartilhar com os leitores desse blogue. Nada demais, mas ao menos eu atualizo o blogue sem precisar falar sobre a crise no Senado!
Religiões portenhas
Como não terminei o relato portenho, re-começo pela peregrinação atrás das casas de tango numa fria madrugada de setembro em Buenos Aires. Depois de alguma pesquisa a indicação era de uma casa chamada “El Boliche del Roberto”. Pensei, mas um boliche? Fui com o pé atrás, mas a fonte parecia confiável e me garantiu que ali eu encontraria o que não se encontra nas casas de tango-show, caça-níqueis de turistas.. Não teve erro, boliches são os equivalentes argentinos a nossas biroscas, botecos, bitacas. Não havia, pelo menos nos que eu fui, sequer uma mesa de sinuca ou de totó, muito menos uma pista onde se busca strikes! Havia música ao vivo, acústica, tango cantado acompanhado por violão. Mais uma vez eu me surpreendi, como aconteceu em Lisboa e em Sevilha, com o silêncio religioso durante aqueles sets de cinco ou seis músicas intercedidos por intervalos de vinte minutos. A maior parte do público eram argentinos que conheciam o repertório inteiramente e, num local onde havia pelo menos umas cem pessoas, podia-se ouvir perfeitamente de qualquer parte da casa os senhores que dispensavam microfones e sistemas de amplificação que não a caixa de ressonância de seus violões e de seus próprios pulmões!
É inevitável a comparação. Imagine ouvir em qualquer cidade do Brasil um repertório com clássicos de Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira nessas condições? Impossível!
Mas eu iria me surpreender ainda mais. Dia seguinte fui ao Clube Fernández Fierro Orquesta Típica. Uma espécie de galpão, com mesas e cadeiras e um palco ao fundo, atrás de uma tela de proteção. O palco era ocupado por dez pessoas: piano, contrabaixo acústico, dois violinos, violoncelo, três bandoneons e um mestre de cerimônias, que em certos momentos assumia o microfone para apresentar as músicas, entreter a platéia ou recitar um poema sobre a base musical.
O mais impressionante é que embora a formação fosse de uma orquestra típica de tango, com uma estrutura semelhante ao octeto de Piazzola, a atitude dos músicos no palco era a de uma banda punk. A forma furiosa e performática com que eles tocavam, os contrapontos absurdos que eles faziam questão de ressaltar, causavam ainda mais impacto por ser aquele lugar, com aquelas características e com aquela luz. Certamente, poucas vezes vi a iluminação interferir tanto num espetáculo musical quanto daquela vez. A linha de frente do palco, com os três bandoneons alinhados, liderados por um bandoneonista mascarado e com longos cabelos rastafári, executava seus instrumentos com tanta maestria e fúria que a performance se transformava em algo da ordem do fantástico, dada a plasticidade do instrumento que ora parecia em sua amplitude as pernas abertas de uma dançarina nas mãos firmes de seu parceiro em pleno vôo.
Depois disso eu assisti também um concerto do Fito Paes, mas nada que me causasse uma impressão sequer próxima da Orquestra. O mais curioso para mim foi a reação da platéia, que se comportava como se estivesse num jogo de futebol, cantando e torcendo ao mesmo tempo. Com efeito, o tango e o futebol são uma espécie de religião para o argentino. Num dos passeios, próximo à Casa Rosada, me deparei com um grupo de manifestantes que reinvindicava algo ruidosamente. Mas não era um movimento de trabalhadores contestando uma medida tomada pelo governo, sequer era uma classe social definida: eram torcedores do Racing reinvindicando apoio do governo para determinadas ações que deveriam ser tomadas em relação ao clube.
Retornei no dia seguinte e quando fui à Calle Florida procurar discos e regalos, me assustei com uma enorme fila que virava quarteirões. Pensei: será que estão comprando ingressos para ver o jogo da seleção argentina? Nada disso, eram os fãs de Madona se acotovelando.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
É fixe!
Em Portimão participo ainda de um recital de poesia organizado pelo Instituto de Cultura Ibero-Atlântica a convite do editor da Revista Atlântica João Ventura. Ele me recomendou que levasse na bagagem alguns litros de cachaça mineira. Sei que a cantora portuguesa Susana Travassos e a poeta mineira Brisa Marques estão por lá e também foram convidadas.
A viagem vai ser muito rápida, mas mesmo assim pretendo ouvir o António Zambujo no Senhor Vinho mais uma vez. E se tiver sorte vejo ainda numa casa de fados em Alfama a Ana Moura, a Carminho, a Raquel Tavares, ou mesmo o Camané!
Espero também que o meu parceiro Tiago Torres da Silva não tenha vindo ao Brasil justo essa semana e possamos finalmente tomar um vinho e comer um bacalhau.
Vou levar minha máquina e meu gravador. Depois eu conto aqui com mais detalhes o périplo português!
segunda-feira, 13 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
A Moura
“Esculpindo a solidão no sal”
Renato Negrão em Extravio
O deserto percorre todo o disco, seja em arranjos que evocam a ação contínua dos ventos como em “Seu Avô”, seja na própria temática de canções como “Casa de Areia”, que descreve a ação inexorável do tempo e das forças naturais numa paisagem desolada. A solidão (Sombra, Terra Estrangeira, Extravio, Casa de Areia), a loucura (Canção do Lobisomem, Cego com Cego, Mortal Loucura), os rituais de passagem (Solstício de Inverno, Moçambique) assim como os pequenos prazeres e as belezas mais recônditas (O Pidido, O amor de Dentro, Ímpar ou Ímpar) insurgem com uma força arrebatadora que nos coloca diante do imponderável da vida. Cada nota soa como cristais de areia e sal que atravessaram o atlântico em correntes de ventos marítimos e formaram aqui paisagens sonoras inusitadas.
Por outro lado, consciente de que a influência moura aqui deste lado se fez presente por apropriação e justaposição constante de elementos da cultura árabe com a cultura negra, indígena e européia branca, através de fusões melódicas, rítmicas e instrumentais, o disco não se prende a um estilo ou gênero específico que possa dar ao trabalho o caráter de música árabe ou oriental, por assim dizer. Pelo contrário, o que se dá é um diálogo profundo com a melhor tradição da música brasileira e isso, por si só, explica e justifica seu ecletismo e sua profusão de referências implícitas. O tempero mourisco, por sua vez, surge amalgamando a multiplicidade nos pequenos detalhes, nos intervalos de tons audíveis apenas para os ouvidos treinados, nas escalas nordestinas que pontuam uma e outra melodia, nos silêncios suaves e nas respirações suspensas. Apesar de incontestável, a herança ibérica é sutil, às vezes subliminar, tornando a audição uma verdadeira aventura através do tempo e do espaço sonoro. E não é por acaso que o disco remete ainda aos gregos, a começar pelo próprio nome. Afinal, foram os árabes que re-introduziram a cultura grega na Europa medieval cristã.
O tecido fino dessa Moira interliga conceitos e idéias esquecidos no baú de nossa memória ancestral. O fio da tradição oral se torna por isso um guia imprescindível para nos orientarmos na travessia desse labirinto implacável de sons e sentidos. Não será surpresa tampouco se Cloto fiar essa linha de Ariadne na roca contemporânea que engendra a rede mundial conectada por fibras óticas. Nas mãos das Parcas as tessituras da vida se entrelaçam para determinar nosso destino. Maísa é uma fiandeira de sons e não há como passar imune aos seus sortilégios. A não ser que você tenha cera nos ouvidos!
sábado, 20 de junho de 2009
Rios, pontes e overdrives
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Manifesto pela Música Autoral
Além disso, há uma peculiaridade que dá liga e amálgama para toda essa produção, algo ainda intangível, dissimulado quase, subreptício, mas identificável na maior parte dessa produção, independente de gênero ou estilo. Esse elemento muitas vezes é identificado como um germe da escola harmônica mineira, ainda que seja a negação dela.
Outra característica dessa cena é o fato de que não há unidade estética, a produção vai da música instrumental ao rock, do regional ao samba, há uma diversidade e uma afinidade ideológica.
Alguns fatores contribuíram e ajudam a entender o fenômeno. Houve nos últimos anos uma significativa profissionalização dos músicos e produtores atuantes na cena. Parte dela é graças ao aporte financeiro injetado no mercado local pelas leis de incentivo, com destaque para a estadual, com dedução do ICMS. Graças às leis a maior parte desses artistas conseguiu gravar seus discos em condições adequadas, montar seus shows com qualidade técnica compatível com os padrões de mercado, adquirir equipamentos e instrumentos de qualidade, além dos produtores terem se capacitado, formalizado suas empresas, etc.
Outro fator importante é o advento da organização inédita dos músicos. Nos últimos anos surgiram algumas entidades e um fórum que ganhou reconhecimento da sociedade e abriu um canal de interlocução com o poder público. A partir dessa articulação foi lançado um programa inédito no país que engloba um edital de passagens, um edital de circulação nacional e um programa de exportação.
Iniciativas como o Reciclo Geral, realizado em 2002, organizado pelos próprios músicos e considerado um marco dessa nova geração, serviram como modelo e incentivo para outras ações. Serviram também para provar a existência de um público ávido por novidade, que naquela ocasião lotou o Reciclo Asmare Cultural durante três meses para ouvir exclusivamente composições inéditas.
Essa música começa a ser reconhecida no Brasil e no mundo. Prova disso são os convites de festivais e casas de espetáculo que começam a surgir. O público local já percebeu esse fenômeno e acompanha a cena com avidez. Tudo indica que somente os elos da cadeia responsáveis pela veiculação e consumo local são os únicos ainda insensíveis ao fenômeno. Só isso explica o fato dessa música não tocar nas rádios locais (com exceção de programas específicos da Rádio Inconfidência, da UFMG Educativa e da Rádio Guarani) e não haver sequer uma casa de shows onde essa produção seja acolhida com um mínimo de dignidade.
Entenda-se por acolhimento digno o cumprimento mínimo de exigências universais para que a música autoral seja apresentada, a saber: som e luz compatível com a formação e tratamento acústico de acordo com o espaço; palco com dimensões adequadas à formação; cachê ou porcentagem mínima da bilheteria; apagamento da luz da platéia e interrupção do serviço dos garçons durante a apresentação; tempo máximo de 2h incluindo possíveis intervalos; alimentação dos músicos; pagamento dos direitos autorais; contrato assinado.
Essas condições, que podem parecer exageradas se considerada nossa situação atual, são comuns em todas as casas de espetáculo que investem no perfil de música autoral em qualquer parte do mundo. Palco, luz, tratamento acústico e atenção do público, redução da luz e interrupção do serviço de atendimento das mesas (em algumas casas os garçons atendem com lanterninhas) são detalhes fundamentais para se conseguir uma ambientação adequada.
Mas sabemos que não se modifica esse atual contexto da noite para o dia. É gradual a profissionalização dos espaços e a resposta do público ao investimento é inevitável. Esse é o primeiro passo, estamos aqui propondo um diálogo aberto com os programadores e diretores de rádios e os donos das casas de shows em Belo Horizonte.
domingo, 17 de maio de 2009
Discografia para baixar
Eu só tenho de agradecer e apoiar os responsáveis pela iniciativa, não só por terem se dado ao trabalho de subir meus discos mas, principalmente, pelo fato de terem me possibilitado conhecer de ouvido muita coisa que eu tinha só ouvido falar.
A Outra Cidade (2003) no Música da Boa
Danaide (2006) no Um que Tenha
Autófago (2008) no The Bossa Blog
Espero em breve disponibilizar também os meus livros, assim que conseguir finalizar a re-diagramação deles, já que perdi os arquivos originais num HD queimado.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Técnica infalível a serviço do glorioso!
Desde pequeno torço pelo glorioso Metaluzina, de Barão de Cocais. Fui meia-esquerda e batia os pênaltis no dente-de-leite e depois nas categorias subsequentes. Tinha uma técnica infalível de concentração que desenvolvi lendo “O Kung Fu de Bruce Lee”. Naquela época me parecia uma associação natural.Parei de jogar bola aos dezessete, dezoito anos e faz muitos anos que não bato um pênalti. Não me lembro mais da técnica marcial. De alguma forma perdi o interesse por futebol desde que parei de jogar.
Assisti a todos os jogos da seleção brasileira na copa de 82. Foi o maior time que minha geração viu jogar. Eu tinha sete anos. Por isso todos os garotos da minha idade que gostavam de futebol tinham pelo menos duas grandes referências: Zico e Sócrates. O Galinho jogava pelo Flamengo e o Doutor pelo Corinthians.
Todo garoto da minha idade que gostava de futebol torcia por esses times por contigüidade, porque assim torciam pelos seus heróis. Por isso vejo com uma certa simpatia nostálgica essa conquista dos títulos estaduais pelo Flamengo e pelo Corinthians. É uma espécie de retomada simbólica do futebol mítico daquela seleção que Pasolini classificou como poesia. Nenhum jogador encarnou melhor essa característica cada vez mais rara no futebol-força atual do que os três Ronaldos falantes do português.
Ronaldo Nazário, particularmente, me chamou a atenção para o futebol novamente quando surgiu no Cruzeiro. Comecei a torcer por contigüidade. Depois acompanhei sua carreira de longe, eventualmente, principalmente no Barcelona e no Real Madrid, com as facilidades das transmissões a cabo. Seu retorno como fênix ressuscitada num time nacional, nas circunstâncias em que ocorreram, dão um caráter épico à sua trajetória. Todos os caras da minha idade que jogaram futebol na infância tem de reconhecer o fato incontestável de que ele é o melhor jogador da nossa geração. Ele é tudo que nós queríamos ser nas nossas peladas de várzea porque conseguiu realizar em ato nosso desejo de jogar com a categoria de Zico e a inteligência de Sócrates.
E digo tudo isso sem deixar de lado minhas convicções e minha condição irrefutável de torcedor incondicional do glorioso Metaluzina! Qualquer hora dessas inclusive, vou disponibilizar aqui o hino que compus em homenagem ao maior orgulho dos pés-de-pomba.
Por hora estou pensando em voltar a bater pênaltis...
sábado, 18 de abril de 2009
Revista de Autofagia nº 3
Durante a semana eu pensei em várias pautas para esse poste. Podia falar das reformas da Lei Rouanet e da criação do Fundo Nacional de Cultura; da reunião que tivemos com o ministro Juca Ferreira para tratar desse assunto; do show que farei na próxima quinta no Parque Municipal, aqui em Belo Horizonte; da criação do meu perfil no twitter; da seleção para participar de um festival em Londres, no mês de novembro; dos shows que rolaram em Brasília e no Rio nas últimas semanas e das conversas com Tom Zé no camarim do Palácio das Artes; da participação no belíssimo e delicado show da Maísa no Teatro Alterosa; dos discos do Rafael Macedo, do Leo Minax e da Carol Saboya, que chegaram esta semana com canções minhas; da viagem que farei para Alagoas no início de maio; do seminário internacional sobre música que estou ajudando a organizar e da mesa que vou mediar na semana que vem; etc.Downloads
Resolvemos também disponibilizar os dois primeiros números em PDF:


Serviço de utilidade pública
Improviso em Pequim
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman deu permissão mundial para falar com candor.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque Ezra Pound viu uma torre de marfim, apostou num cavalo errado, deu aos poetas permissão para escrever no idioma vernacular falado.
Eu escrevo poesia porque Pound indicou aos jovens poetas do Ocidente que observassem as palavras da escrita pictográfica chinesa.
Eu escrevo poesia porque William Carlos Williams que vivia em Rutherford escreveu o
Novajerseyês “I kick yuh eye”, perguntando, qual a medida disso em pentâmetro iâmbico?
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que falava
Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque meu jovem amigo Gary Snyder sentou-se para olhar seus pensamentos como parte dos fenômenos do mundo exterior exatamente como numa mesa de conferência em 1984.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo porque a poesia pode revelar os meus pensamentos, curar minha paranóia e também a paranóia de outras pessoas.
Eu escrevo poesia porque minha mente vagueia entre assuntos de sexo política meditação Buddhadharma.
Eu escrevo poesia para fazer boa imagem da minha própria mente.
Eu escrevo poesia porque tomei os Quatro Preceitos do Bodhisattva: a sensibilidade a ser liberada das criaturas é inumerável no universo, minha própria ignorância gananciosa corta a infinitude da verdade, as situações em que encontro a mim mesmo enquanto o céu está bonito são incontáveis, e o caminho da mente desperta não tem fim. Eu escrevo poesia porque essa manhã eu acordei tremendo com medo o que é que eu iria dizer na China?
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram suicídio, alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia por causa do meu pai que recitava o poeta Inglês Shelley e o poeta americano Vachel Lindsay em voz alta dando exemplo grande alento de inspiração.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos.
Eu escrevo poesia porque milionários de Leste a Oeste dirigem Limousines Rolls-Royce e pobres não têm dinheiro nem para ir ao dentista.
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomas se apaixonam por garotos e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque não tenho responsabilidades dogmáticas de um dia para o outro.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia para me voltar e falar com Whitman, jovens aos dez anos falam com
velhas tias e tios que vivem ainda nas proximidades de Newark, Nova Jersey.
Eu escrevo poesia porque ouvi negro blues no rádio em 1939, Leadbally e Ma Rainey.
Eu escrevo poesia inspirado pela alegre juventude das canções envelhecidas dos Beatles.
Eu escrevo poesia porque Chuang-Tzu não podia dizer se era homem ou borboleta, Lao-Tzu disse que a água flui montanha abaixo, Confúcio disse para honrar os mais velhos, eu quis honrar Whitman.
Eu escrevo poesia porque ovelhas e gado superalimentados vindos da Mongólia para o Ocidente Selvagem dos Estados Unidos destroem a grama nova e a erosão cria desertos.
Eu escrevo poesia calçando sapatos com pele de animal.
Eu escrevo poesia “Primeira idéia, melhor idéia” sempre.
Eu escrevo poesia porque não-idéias são compreensíveis exceto se manifestadas em
determinados minutos: “Não-idéias mas nas coisas”.
Eu escrevo poesia porque o Lama Tibetano diz, “As coisas são símbolos delas mesmas”.
Eu escrevo poesia porque as manchetes de jornal são um buraco negro em nossa
galáxia-central, nós somos livres para noticiar isto.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a
bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque meu segundo longo poema Kaddish homenageava o parinirvana da minha mãe num hospital psiquiátrico.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Moscou, segundo Stalin, exilou 20 milhões de Judeus e
intelectuais na Sibéria, 15 milhões deles nunca voltaram para o Café Stray Dog de São Petersburgo.
Eu escrevo poesia porque eu canto quando sinto que estou sozinho.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem, então eu
me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha mente se contradiz, um minuto em Nova York, o próximo minuto nos Alpes Dináricos.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque sem razão sem porquê.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Maísa nas Alterosas
“Disco e show da Maísa Moura é um bordado táctil, pictórico, na tessitura da canção. Um sítio, um som que te pega pela mão, diante dos imbricamentos da letra e do tom e ponto a ponto palmilham linhas que vão se fazendo diante dos acasos e dos ocasos. Evidenciando os contrastes de cor e luz, por meio de uma banda que se souberam acolher e de uma interpretação sutil, singular. Um disco para se lançar no outono, porque outonos estão se tornando raros, de uma cantora inteligente, de voz rara.”http://nocalo.blogspot.com/
http://www.renatovill.blogspot.com
http://oraboa.blogspot.com
Jornal Hoje em Dia
sexta-feira, 27 de março de 2009
Tomando o Poder
Desta vez eu e meu parceiro Kristoff Silva vamos participar de um debate mediado pela jornalista Patrícia Palumbo e depois mostraremos algumas coisas dos nossos repertórios. Primeiro ele, depois eu, por fim talvez façamos alguma coisa juntos (combinaremos isso na passagem de som, vocês sabem...)!
O curioso é que, desde terça-feira desta semana, Lula está despachando do CCBB enquanto o Palácio do Planalto entra em reforma. A previsão é que a nova sede do executivo fique por lá até 2010, quando devem terminar as obras a tempo das comemorações pelos 50 anos da capital criada por Lúcio Costa.
Acho que nunca estive e nem estarei numa situação tão estratégica e oportuna para tomar o poder! Quem mais se candidata?
terça-feira, 24 de março de 2009
Com Tom Zé
Fui convidado a tocar na abertura do show que Tom Zé fará em Belo Horizonte no Grande Teatro do Palácio das Artes na próxima quarta, dia 25 de março. A última apresentação que assisti do baiano foi em São Paulo três anos atrás quando ele lançava o sarcástico Estudando o Pagode. Naquela ocasião escrevi: "Mais afiado e lúcido do que nunca, Tom Zé pensa e faz pensar a cultura brasileira, levanta bandeiras que hasteadas por qualquer outro soariam panfletárias. Ele no entanto escapa ileso com seu humor irônico e sua sutileza perspicaz. Me lembrei de Jello Biafra, do Dead Kennedys pela sagacidade e acidez crítica. Me lembrei também de Denise Stoklos. Sei que poucos artistas me deram a impressão de domínio tão completo do palco, o êxtase, a contenção, o improviso e a precisão cirúrgica do corte no momento certo!". Subscrevo!
Depois disso o redivivo tropicalista já rodou o mundo, lançou mais dois discos indispensáveis e passou a escrever frequentemente num blogue: tomze.blog.uol.com.br
Aqui Tom Zé vai apresentar as canções de seu mais recente trabalho, "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza", o didático (todo disco de Tom Zé tem algum ensinamento escolástico) e delicioso disco em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova.
Tocar antes de um senhor de 72 que tem lugar de destaque na história da cultura brasileira não é tarefa fácil. Principalmente quando esse sujeito é uma de suas principais referências!
Seja como for, faz tempo que não me encontro com o marido de Dona Neusa e vai ser ótimo re-encontrá-lo nesta situação: provavelmente durante a passagem de som. Não combinamos nada e acho improvável que tenhamos tempo para ensaiar alguma coisa juntos. Mas quem sabe?
Por determinação contratual não poderei levar minha banda. Sendo assim me apresento em formato acústico e reduzido: Guilherme Castro na viola e no violão de aço e Rafael Azevedo no violão de aço e no baixolão. No repertório algumas coisas do Autófago e outras que devem entrar no próximo disco, Cavalo-Motor, previsto para 2010.
Deixo aqui três dicas à queima-roupa:
Nave Maria, lançado pela RGE em 1984, seria o último disco por uma grande gravadora e é o prenúncio do ostracismo, que se arrastaria por todos os anos oitenta até o advento de David Byrne. É um disco seminal, um dos meus preferidos. Infelizmente menosprezado pela crítica e desconhecido do público.
Tropicalista lenta luta, o livro memória-crônica-entrevista-depoimento lançado pela Publifolha em 2003. Fica na minha estante ao lado de "Os Últimos Dias de Paupéria" do Torquato e "Verdade Tropical" do Caetano. É um equilíbrio instável...
Fabricando Tom Zé, documentário dirigido por Décio Matos Jr. durante a turnê européia de 2005, mistura formatos (película, video, animação) e formas (entrevistas, imagens de shows, bastidores, processo criativo) para tentar dar conta da diversidade do documentado. Entre vaias e aplausos, mea-culpa e desabafos, a cena em que o iraraense dá um esporro no técnico durante a passagem de som no Festival de Montreux, na Suíça, é antológica!
Mais informações aqui.
Ouvi dizer que os ingressos estavam se esgotando!
domingo, 22 de março de 2009
Música Minas
Todos estão convidados para o lançamento dos Editais do Música Minas - Programa de Estímulo à Música, parceria com o Fórum da Música de Minas. O programa envolve um edital de passagens, um edital de circulação nacional por algumas capitais, a confecção de um catálogo, produção de um documentário, criação de um portal e a participação de uma delegação mineira em feiras nacionais e internacionais.
Data: 24 de março de 2009
Horário: 15 horas
Local: Palácio da Liberdade - Belo Horizonte - Minas Gerais
Para confirmar presença:
Telefone (31) 3299-4068
E-meio: cerimonial@governo.mg.gov.br
Mais informações sobre o programa: www.programamusicaminas.com.br
segunda-feira, 16 de março de 2009
Show e debate no Rio
Participam do projeto nomes como Arnaldo Antunes, Chico César, Luiz Melodia, Fernando Brant, Rodrigo Bragança, Danilo Moraes, Luiz Tatit, Alice Ruiz, José Miguel Wisnik, Ricardo Cravo Albin e Arthur Nestrovski.
A programação de amanhã é a seguinte:
12h30 - “A Canção Popular Brasileira Contemporânea: Novos Horizontes”
Show de Makely Ka e participação de Ricardo Cravo Albin, Danilo Moraes e Rodrigo Bragança. Apresentador: Wandi Doratiotto.
18h30 - “A Canção Popular Brasileira Contemporânea: Novos Horizontes”
Show de Danilo Moraes e Rodrigo Bragança e participação de Ricardo Cravo Albin e Makely Ka. Apresentador: Wandi Doratiotto.
O projeto acontecerá sempre às terças-feiras (dias 17, 22, 31 de março), às 12h30 e 18h30, com repertórios e temas diversos.
Os ingressos custam R$6,00.
Nova Consulta
O Edital de Circulação Nacional do Programa Música Minas tem por objetivo formar público para os artistas mineiros, estreitar relações culturais e comerciais e reposicionar nacionalmente a música produzida em Minas. Para tanto, realizará a circulação de artistas residentes em Minas Gerais por capitais brasileiras no período de julho a dezembro 2009.
A consulta tem como objetivos a apresentação do edital desenvolvido pelo Fórum ao setor musical mineiro e o recebimento de sugestões que possam ser incorporadas ao texto final. A consulta acontecerá no dia 17 de Março, às 19 horas, no auditório do SEBRAE-MG localizado à Av. Barão Homem de Melo, 329 - Nova Suíça. A lotação do auditório é de 200 lugares e a participação seguirá a ordem de chegada, respeitando-se a capacidade do local.
domingo, 15 de março de 2009
A força da união de letra e melodia
Jornal O Estado de São Paulo
13 de março de 2009
Há compositores que reconhecem a força poética da canção brasileira, a mais viva expressão cultural do País. Em entrevista recente ao Caderno 2, o pernambucano Alceu Valença defendeu: “Minha música é poesia.” Para falar sobre o tema, o Estado entrevistou três compositores e uma letrista poeta, que não estão no filme de Helena Solberg: o gaúcho Vitor Ramil, também escritor, o mineiro Makely Ka, o pernambucano Siba e a paranaense radicada em São Paulo Alice Ruiz, que foi casada com Leminski.
Um dos mais brilhantes em atividade hoje, Siba - que lançou na semana passada o álbum Violas de Bronze, com Roberto Corrêa - é herdeiro da tradição dos trovadores, referência inicial de Palavra (En)Cantada. Compõe seguindo procedimentos da poesia oral nordestina. “Essa discussão é engraçada porque parte do pressuposto de que o que é considerado poesia é a poesia literária. Meu ponto de partida é outro, é o que a gente chama de poesia rimada do Nordeste, que tem uma estética própria.”
“Trabalho para que o texto tenha vida própria, embora muitas vezes esse texto lido perca uma parte do encanto dele que depende do ritmo”, diz Siba. Ritmo é o que sobrou da poesia, “depois que ela se libertou da métrica e das rimas”, como observa Alice. A poesia dos cantadores nordestinos, como observa Siba, tem a música e o ritmo a serviço dela. “O poder encantatório dela vem muito em função do ritmo e da combinação das palavras. Por isso, pra gente é importante levar às últimas consequências o rigor das regras.”
Outro diferencial que Alice aponta é o timing: “O tempo do olho é diferente do tempo do ouvido. Para o ouvido você tem de ter uma coloquialidade de tal forma que a pessoa que te ouve seja envolvida imediatamente”, diz a poeta. Vitor Ramil concorda com ela: “A letra de música tem de ter uma ação imediata sobre quem ouve. É bom que a ação dela se prolongue no tempo, para que o ouvinte fique refletindo a partir da letra de uma canção. Talvez a poesia possa ser feita um pouco mais desencanada desse tipo de propósito.”
Como Siba, Makely Ka se relaciona com a tradição oral. “Nesse sentido Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik têm razão quando dizem que a gente tem uma tradição oral muito sofisticada, porque a letra da canção está muito próxima da fala.” Para Makely, uma boa letra de canção não precisa ser poesia, assim como “bons poemas não necessariamente dão boas letras”. “Fazer letra para uma melodia é uma mistura de poesia com palavra cruzada, porque você tem uma métrica estabelecida, onde se tem de encaixar a prosódia, a rima, enfim, vários elementos”, diz o poeta de Ego Excêntrico e compositor do CD Autófago.
Ramil, como Adriana Calcanhotto, não faz questão de separar os universos da letra e da poesia. Ele, que não é poeta, mas escritor de livros como Satolep (romance) e A Estética do Frio (ensaio), diz que seu trabalho literário guarda características da atividade de letrista. Além de canções com poéticas letras próprias, Ramil já musicou versos de Fernando Pessoa, Emily Dickinson e João da Cunha Vargas e prepara um álbum com oito poemas do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e outros de Vargas, com melodias dele. São poemas (que Borges escreveu como se fossem letras de milongas) reunidos no livro Para las Seis Cuerdas, de 1965. “Os poemas que costumo musicar fluem com naturalidade. Para mim, a palavra e a melodia são bem casadas.”
Com Alice Ruiz, autora de versos como o de Socorro (parceria com Arnaldo Antunes), o caminho é inverso: “Ao mesmo tempo em que tenho poemas musicados, tenho muitas letras feitas como tal. Uma boa letra tem de ter algumas características poéticas. Por exemplo: tem de ter uma ideia e uma trama na linguagem, o que a transforma em poesia, que case com a ideia.” Mas se a canção no Brasil tem esse papel que a poesia dos livros cumpre em outros países, isso para Alice se deve “muito à excelência da nossa canção”, opinião que Ramil endossa. “É mais um motivo pra gente caprichar”, brinca ela.
“Quero perder o medo da poesia/ Encontrar a métrica e a lágrima/ Onde os caminhos se bifurcam/ Planando na miragem de um jardim/ ... Eu astronauta lírico em terra/ Indo a teu lado, leve, pensativo.”
VITOR RAMIL
“Eu fiz da poesia minha ambrosia / Meu sustento, meu motor / Meu canto em agonia entra agora em afasia / E trás de dentro a carne em flor / Eu quis a boemia, a fantasia / O ornamento, o esplendor”
MAKELY KA
“Quem me dera fosse meu/ O poema de amor definitivo/ Se amar fosse o bastante/ Poder eu poderia/ Pudera/ Às vezes parece ser esse/ Meu único destino/ Mas vem o vento e leva/ As palavras que digo/ Minha canção de amigo/ Um sonho de poeta/ Não vale o instante vivo.”
ALICE RUIZ
“Na varanda da fazenda/ Está sentado um violeiro/ Que ponteia imaginando/ Os sonhos de um fazendeiro/ ...E o poeta passa a noite/ Procurando a rima exata/ Esfumaçada num café quente/ Numa caneca de lata/ E a noite paga as cantigas/ Com uma moeda de prata.”
SIBA
sexta-feira, 13 de março de 2009
Conexão no Interior
Sigo daqui a pouco para São João Del Rey. Hoje eu dou uma oficina sobre Contra-Indústria e amanhã apresento o show do disco Autófago. No show, que acontecerá no Largo São Francisco, estarei acompanhado pela minha banda completa e contarei com a luxuosa participação da cantora portuguesa Susana Travassos, quem eu conheci ano passado durante a WOMEX em Sevilha, na Espanha. Ela vai cantar duas músicas inéditas que pretende gravar em seu próximo disco.
O show e a oficina acontecerão dentro da programação do Conexão Vivo. Confira a programação completa aqui.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Consulta Pública para Edital de Passagens
O edital tem como objetivo a promoção e difusão da música mineira no Brasil e no exterior. Dessa forma, financiará passagens aéreas a músicos, produtores, jornalistas, estudiosos e técnicos do setor, com o objetivo de possibilitar a sua participação em atividades culturais promovidas em âmbito nacional ou internacional.
A concessão do apoio financeiro será viabilizada com recursos oriundos do convênio estabelecido entre o Fórum da Música de Minas Gerais e a Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. O Fórum é formado pelas entidades COMUM (Cooperativa da Música de Minas), SIM (Sociedade Independente da Música), AMMIG (Associação Artística dos Músicos de Minas Gerais), CMMI (Circuito Mineiro de Música Independente) e AMMUCE (Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina).
A consulta tem como objetivos a apresentação do edital desenvolvido pelo Fórum ao setor musical mineiro e o recebimento de sugestões que possam ser incorporadas ao texto final. A consulta acontecerá no dia 04 de Março, às 19 horas, no auditório da Escola Técnica de Formação Gerencial do SEBRAE-MG localizado à Av. Barão Homem de Melo, 329 - Nova Suíça. A lotação do auditório é de 100 lugares e a participação seguirá a ordem de chegada, respeitando-se a capacidade do local.








